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Arquivo de Março, 2008

Mister Bento e a árvore

— Bom dia mister Bento. Está bom?
O velho olhava para cima através das suas lentes de míope. Reparava num homem pendurado no topo do cedro. Com gestos matemáticos a serra ia cortando os ramos, pedaços de tronco. Vinha tudo por ali abaixo a uma velocidade de luto. A árvore acumulava-se no chão, desmembrada.
Mister Bento baixou [...]

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A Minha Avó Irene

Vi que tinha perdido a infância para sempre ao retornar à casa da minha avó Irene. Encontrei-a de cabelos brancos, olhos escuros, tristes, e um xaile de lã, castanho, aquecendo-lhe o cansaço dos ombros curvos. A força do seu olhar, porém, revelava uma dimensão superior à fragilidade do seu corpo.
Eu tinha entrado na sua casa [...]

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A cidade

Não atravesses a ponte que te leva à cidade:
cairás nas redes da sua implacável escuridão.
Escuta o rio do teu próprio sangue, a água
dos sonhos no alvor dos labirintos.
Restolham nos teus passos as pétalas caídas da noite
que sangra e te leva à cidade dos foragidos,
às suas monções de fumo, aos seus escravos de fato que [...]

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Novo livro no prelo

Está para breve a saída de mais um livro do autor, Travelling with Shadows / Viajar com Sombras, uma edição de poesia bilingue (Português/Inglês) da editora canadiana Libros Libertad.
Aqui fica a capa.

(Fotografia da capa de Marcelo Corrêa, Rio de Janeiro, Brasil).
Para mais informações, p.f. ver aqui: http://www.libroslibertad.ca/book.php?id=12

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Sinais

Varre os sinais da lua
que te correm a face.
Aproxima-te. O mar chama-te deste lado
onde me deito.
Por que porta entraste nas minha palavras?
Em que exílio me confundes?
Não sou daqui, como te disse.
Fugi há muitos anos do meu nome,
minúscula erva dos montes.
Reparte comigo o pão dos antigos,
a cama de um poema longo.
E este vento, oh!, este vento
que [...]

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As mãos de um homem

Perde-te nas minhas mãos,
que sou tão breve.
Passa pelos meus dedos
como a água pelos tecidos da terra.
Grita entre as pedras dos rios
e sob o contacto da minha pele.
Trago um incêndio de África
e esta agonia de homem a correr.

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9
Os médicos apareceram no quarto. Olharam para mim como quem analisa um enigma. O coração acelerou-se-me. Soergui-me na cama.
– Não encontrámos nada de significativo. Precisávamos que ficasse mais uns dias de modo a provocarmos um estado de tensão que nos indicasse as causas do seu problema.
Momentos antes de eles terem chegado, a enfermeira de serviço [...]

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5
No domingo de tarde apareceram a mulher e a filha mais nova do George. Ela era uma senhora alta, forte, e que enfrentava o Inverno com um grosso casaco tipo Kispo. Puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado do marido. A menina, de doze anos, acomodou-se, com alguma timidez, aos pés da cama do [...]

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