É um lugar pequeno, isto é, a baía, o meu refúgio mexicano. Nestes dias de nervos e stress, pensava nele. Fica a menos de seis horas de avião. Pegar na mochila, num livrinho de apontamentos e na máquina fotográfica, e seguir. Mas esta coisa agora estranha da gripe suína, ou o que valha chamar-se-lhe.
O hotel fica numa pequena elevação. Das pequenas varandas vê-se o mar. No declive, que não é acentuado, plantas e flores tropicais. Estender-me na rede sob as palmeiras, o rumor da brisa. Adormecer de olhos abertos.
Penso e quero ir-me embora. A palapa na areia, o cais, o voo dos pelicanos sobre o azul.
Lembro-me que, uma vez, vi um anjo nos olhos de um cão. Era um bicho magro e sem a protecção de uma vida humana. Aproximou-se de mim a abanar a cauda. Ficámos na areia até o crepúsculo atirar-nos, lânguido, o último fogo.
O bicho exalava um cheiro a floresta, àquele mar tranquilo que a escuridão tornou negro, negro. Pobres bichos da Terra! Tão vulneráveis na sua liberdade, prisioneiros desta nossa eterna indiferença por tudo aquilo que passa ao nível dos nossos joelhos.
Procuro, em climas assim, a África perdida. Naquele lugar, porém, eu sou eu: descalço no chão de tijoleira vermelha, o mosquiteiro em volta da cama, o chuveiro aquecido a lenha. Na noite imensa, só há luz entre as oito e as dez. Depois acendem-se velas.
Por detrás do hotel o mistério profundo da floresta, dos linces negros, escorpiões, das aves nocturnas e sábias. Ouvir tudo acordado outra vez, sentir o escuro belo, belo, envolver-me, o mar a bater de mansinho no silêncio. Beber então devagarinho a última tequila.
Agora ficar apenas assim, nesse mundo que nos deu….