Estou no café. Anoitece devagar. Duas mulheres atrás de mim conversam. Não me interessa o que dizem, mas oiço-as. Têm a euforia do sábado.
Na mesa em frente, perto da janela, está uma índia. Tem o cabelo muito negro, oleoso, liso e comprido. É a segunda vez que a vejo. Aparece, pelos vistos, com o mesmo casaco, tipo kispo, vermelho com listas vermelhas. Notei-a a primeira vez porque estava sempre a falar sozinha, como agora. Com o café, bebe também uma gasosa, tipo 7Up, por uma palhinha. Bate com o pé direito no chão, acompanhando um samba.
Ao fundo, muito compenetrado, um chinês de óculos a escrever num computador portátil. Aparece muitas vezes. Tem auscultadores nos ouvidos e dois copos no seu lado direito.
Venho aqui quase todos os dias. Bebo café, oiço música, e escrevo num pequeno bloco de apontamentos. É de má qualidade: as folhas desprendem-se com facilidade.
Quase sempre aparece alguém conhecido. Esta manhã, enquanto lia o jornal, uma voz conhecida atravessou as folhas: era o… Já falei com ele imensas vezes mas não sei o seu nome nem ele o meu. Uma vergonha para ambos.
Baixinho, ossudo, vem aqui todos os dias buscar a sua dose de cafeína. Um copo monumental. Solteirão, gosta de motas. Voa por aí numa Ducati que lhe custou uma pequena fortuna. Gaba-se das vezes que já andou a 300 quilómetros por hora. Certamente que voa, à mosquito.
É um tipo giro. Tem olho rápido e discreto para as miúdas que passam. Histórias, muitas, de viagens. Sobre o jornal a sua voz, o sol alto, a cantar:
– Amanhã há corridas de motas!
Esta é a vida dele, a duas rodas, uma vertigem de se cortar o vento em milhões de partículas.
Passo o dia a falar de coisas que não me interessam. Por outro lado, vou aprendendo. Esta coisa de ser-se sociável é complicada.
Gosto de socializar para aprender. Mas nem sempre acontece. Uns, arrogantes no exercício do conhecimento, irritam-me; outros, papagaios depenados, palram para impressionar.
A índia acabou de sair. Levanto os olhos do papel e observo-a um momento: o andar manquejado pelo passeio, as mãos escondidas nas mangas muito compridas. Passa anónima sob os reclames luminosos das montras, muito vivos entre a negridão nocturna.
São quase dez horas da noite e o café não tarda a fechar. Fecho o bloco e guardo tudo na mochila. Visto o casaco, pego no capacete da mota e saio.
A noite de Maio ainda fresca. Ligo a ignição. Os duzentos cavalos sob o tanque de gasolina roncam, ávidos de estrada. Vou?
Boa noite.