Fez hoje uma semana que a Marlene se foi embora. Aposentou-se. O computador, diante do qual ela se sentava horas a fio, está agora ocupado por outra funcionária.
No último dia de trabalho apareceu mais cedo e com a cara pintada de branco. Em volta da boca desenhou um sorriso escarlate, tão grande que se via à distância. Colocou balões ao redor da secretária e pôs à disposição de todos, num recipiente de plástico, biscoitos deliciosos que ela mesma confeccionara na véspera.
Meses atrás tinha-me confessado que contava os dias até se reformar. Não estranhei, portanto, o seu aparato naquela sexta-feira um tanto soturna e com um frio matinal extemporâneo. Era seguramente um dos dias mais felizes da sua vida.
Marlene tinha um temperamento de aço e a eficácia profissional de um relógio suíço. O seu coração, no entanto, era doce como um fruto tropical. Apesar de trabalhar ali há imensos anos, poucos a conheciam sem a carcaça social que ostentava. Eu fui daqueles, ou mesmo o único, que teve o privilégio de conhecer o seu lado manso.
Aproximei-me quando todos fugiam dela. Não era para menos: com o seu olhar de lince, o passo de guerreira medieval, a força iminente e explosiva do seu verbo acutilante, a turba, assustada, abria uma clareira para ela passar. Do outro lado, escondido por trás da sombra do medo, o alvo da sua truculência encolhia-se com a sabedoria de um cágado velho. Não havia argumentos nem defesas verbais plausíveis ante a sua investida. Era baixar a cabeça e pedir que o temporal fosse breve e sem grandes prejuízos.
Tudo isso porque Marlene não contemporizava com o desleixo e a ineficácia. Gostava das coisas bem feitas. Um erro era uma mancha, um desvirtuamento profissional. Não sentia o mínimo respeito por aqueles que não tinham orgulho naquilo que faziam.
Começou a trabalhar aos catorze anos, enquanto estudava. Era cuidadosa com as suas finanças, muito regrada, o que não obstou ter viajado muito e esquecer-se em hobbies que preenchiam a sua vida.
Casou com um homem que escreve e gosta de poesia. Publicou até um livro. Mais velho do que ela, já se encontra reformado há alguns anos. Nunca tiveram filhos. A Marlene, com um grave problema auditivo, temia que a deficiência obstasse a sua capacidade para cuidar de um bebé, caída a noite e todos os seus inerentes desafios.
No decurso da nossa existência, as pessoas vêm e vão. Muitas nunca estão connosco; outras, mesmo na ausência, ocupam o lugar de sempre. Para mim a Marlene nunca abandonou aquela secretária, nunca deixou de resmungar com o computador, demasiado lento para a vertiginosa velocidade dos seus dedos. E no entanto alegra-me a ideia de que ela e o companheiro, livres de incumbências, fazem neste momento aquilo que sonhavam há muito fazer: perderem-se nas intermináveis auto-estradas da América do Norte na sua casa de quatro rodas, cujos cortinados são as infatigáveis cores do crepúsculo.
Buena suerte amiga, y gracias por todo.
Tão lindo Eduardo, fico assim em lágrimas.
E que bom ficar livre e ir pelo mundo….