Pensei hoje em Herta Müller, a recipiente deste ano do Nobel. Li um livro seu há uns anos atrás, O homem é um grande faisão sobre a terra. Lembro-me de ter gostado. Mas se me perguntarem detalhes, desculpem, não há vestígios. São pegadas sem rumo no deserto da memória. Foi há muito tempo. Ontem já é uma eternidade.
Procurei o livrinho nas estantes aqui de casa, monstros incontroláveis que avançam já para o tecto. Gostava de o reler. No entanto, não fui capaz de o encontrar. Má vista, suponho. Ou desatenção. (As mulheres dizem que os homens nunca encontram nada; é verdade. É o meu caso. Já ficou provado imensas vezes).
Pela noite, fui ao centro comercial à procura de uma ferramenta para a minha bicicleta. Aproveitei e fui a uma livraria. De Herta, nada, disse-me a empregada. Era uma rapariga baixinha, cabelos escuros, curtos, olhos impermeáveis e resguardos pela tepidez de umas lentes graves.
Noite frustrante: vim para casa sem ferramenta e sem livros.
O conhecimento, penso, começa na intenção. O resto é circunstancial. Como foi hoje. A necessidade faz o resto, quero dizer: amanhã continuo a busca, consciente embora de que sou homem, distraído e falível.
Na aventura, não importa qual, reside o gozo todo.
Quanto a Herta, vou lê-la desta vez com mais atenção.