Para Alzira Silva
Em cada fotografia que tiro tento descobrir um novo universo de cores, formas, objectos e fulgurações. Aprendo assim a conhecer um outro mundo. Embora aparente, há que encontrá-lo entre os contornos do mistério. Um ângulo novo é uma reconstrução imagética. Eleva os sentidos a uma catarse visual, à busca de significados novos para o ser.
Estou na Fotografia porque urge-me encontrar outros caminhos para o quotidiano, sem palavras. Apenas o silêncio profundo ante o inesperado – uma cadeira num charco, o cão da cidade atrelado à mão de um velho, que é a nossa mão, frágil e instável, segurando as nossas contradições.
Curioso: as sementes da minha poesia começaram em S. Miguel. Muitos anos depois, foi através de uma máquina fotográfica que vi o mar nos olhos de uma mulher. Era Verão, e sobre a ilha pairava uma nuvem branca. Eu não tinha os pincéis de Matisse, nem o seu génio. Apenas aquela máquina, pequena, trémula e indecisa encostada ao rosto. Premi o botão e a nuvem entrou na memória. O mar cantava, sempre foi assim nos Açores: como uma imensa língua canina acariciando-me a alma.