O que sobra da noite quando adormecemos dentro de nós? A praia longe, o mar que nos cai dos dedos, a impregnação da pedra enquanto o sol deflagra sobre a nossa pele como uma onde de lume? Tantas perguntas nesta hora em que adormeço como uma raiz arrancada da terra. Oiço-me dentro do silêncio e é noite neste mundo em que habito. Descalço os sapatos, as peúgas, e sento-me na escada a ouvir ( e a sentir) o cansaço do meu corpo, velho companheiro. Há quantos anos, meu amigo, me levas pelo mundo? Há quantos anos bate este coração à procura da primeira música? Desde o tempo em que tudo era simples como a rua onde eu crescia. O universo, acredita, cabia inteiro à entrada da minha porta africana.
É noite, eu sei. Os meus passos são escuros e os meus pensamentos voam como aves que partem a cada instante das minhas veias. Vivo no berço de cada impulso de sangue e nalgumas sílabas que atravessam o teu nome desde a primeira aurora do mundo.