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A máquina fotográfica, uma pequena Olympus que já levei à Costa Rica e ao Panamá, revelou-se-me pesada de mais. Quando finalmente encosto a bicicleta, à espera de embarcar, ardem-me as costas. Não me sinto cansado. Apenas este desconforto. Não devia ter trazido as lentes avulsas. Mas assim é que se aprende, com os nossos erros.

Enquanto o Paul vai à procura de café, chegam outros ciclistas. Homens de meia-idade, com roupas próprias, ligeiras. Ao contrário de mim, de T-shirt e calções com vários bolsos que dançam, largos, nas minha pernas.

Conversamos um pouco. Vão apenas de passeio até Vitória e regressam hoje mesmo a casa. Vivem perto de Tsawwassen, em White Rock, uma cidade aprazível, cosmopolita, cuja artéria principal, junto à praia, cheia de restaurantes e cafés, explode com vida nos longos e belos dias de Verão. Nos intermináveis invernos que nos afligem, por detrás das vidraças de um jantar romântico e prolongado, White Rock ganha outra fosforescência: a de uma paisagem rendida à memória, cinzenta, em cujos espaços abertos circulam, expectantes, as eternas aves do mar.

A poucos minutos de um funcionário do «ferry» nos acenar para que embarquemos, surgem duas senhoras também de bicicleta. Apressam-se para o local onde aguardamos.

Ambas vêm com sacos, adivinhando que estarão por cá alguns dias de viagem. Entretanto chega o Paul, sorridente, com o seu café.

Um sujeito, de jaqueta amarela, faz-nos sinal. Avançamos silenciosamente pelo barco adentro. Sinto uma alegria infantil apossar-se de mim. Ainda não cresci tanto quanto a minha idade. Vagueio num horizonte de cintilações, irreverente, intemporal. Sou estrangeiro no tempo em que existo.

(continua)

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Um pouco adiante decido-me a uma pequena paragem. Sinto calor. Tiro o casaco e bebo um pouco de água. Faço flexões às costas enquanto mergulho o olhar na paisagem em frente. Está uma manhã divinal.  Nuvens brancas e altas correm para o mar. Parecem dançar com o azul.

Pego no casaco, dobro-o e encaixo-o entre a tenda e o saco de dormir. Volto a colocar o capacete, monto a bicicleta, e sigo a linha branca, muito direita, que delimita as faixas de rodagem.

Minutos depois passa um tipo por mim. Ligeiro, leva apenas uma mochila às costas. Desliza como a brisa, sem esforço, na sua bicicleta. Deixo momentaneamente de o ver quando desaparece na descida do viaduto.

Ultrapasso a pequena inclinação sem dificuldade e então vejo-o. Abrandou a marcha para irmos conversando até ao porto.

– Você leva uma carga que faz favor!
– Vou atravessar o mundo!
– Atravessar o mundo? – diz incrédulo.
– Apenas por uns dias…

Chama-se Paul e adora bicicletas. Mais tarde confessa-me que é a sua terapia. Vai também para Salt Spring. Perdeu o emprego e precisa de algum tempo para reflectir. Tem hotel reservado em Ganges mas não sabe quanto tempo ficará.

Vejo as gaivotas de Tsawwassen, o mar, o sol tão branco como uma rosa de água. Um alívio. Levei três horas a chegar aqui, a batalhar o tráfego. Cinquenta e seis quilómetros de ruídos com a minha casa peregrina entre os pés.

(continua)

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A enorme subida deixa-me sem fôlego e apreensivo. Não há uma linha dedicada às bicicletas. Carros e camiões passam muito perto e a grande velocidade. Subo o passeio. Sinto-me mais protegido das caixas de metal com rodas. Mais à frente, quando a estrada alargar, retomarei o meu curso normal.

Viajo há hora e meia e preciso de fazer o ponto da situação. Estou agora em Surrey, uma área urbana. Entre a zona comercial avisto dois sujeitos sentados numa esplanada. Talvez me possam informar.

Fico a saber que, de carro, levaria 20 minutos a chegar à auto-estrada 17. Pelas minhas contas será, de bicicleta, pelo menos cinquenta minutos. Agradeço e continuo.

Algum tempo depois sinto-me aliviado quando, por fim, torno à esquerda após uma ponte.

O percurso agora é plano, embora o horizonte morra longe, longe ainda dos meus olhos.

O saco com a máquina fotográfica, que levo às costas, revela-se um estorvo. De vez em quando sacudo-o para o endireitar. Na próxima vez, trago apenas uma máquina pequena, dessas que se escondem no bolso. Esta parece um corvo às bicadas.

Avisto um polícia parado à beira da auto-estrada. Abre o vidro quando me vê parado ao seu lado.

– Em que o posso ajudar? – pergunta-me curioso.

– Falta muito para chegar a Tsawwassen?

– Está quase lá. A uns vinte minutos – diz com um sorriso.

Agradeço-lhe. Antes de fechar o vidro recomenda-me que tenha cuidado com o tráfego. Deseja-me boa sorte e faz um aceno de despedida.

(continua)

1

São 6:15 da manhã quando saio de casa. A luz matinal é ainda de uma claridade ténue. A bicicleta vai pesada, os quatro sacos cheios, à frente e atrás. Noto que os calcanhares, à medida que pedalo, roçam os de trás. Paro e dou um jeito. Fica um pouco melhor. Decido colocar os pés um pouco mais para a frente nos pedais. Deixo então de ouvir o ruído que me irrita.

Vou de luzes acesas por uma zona escura até avistar a estrada. Viro à esquerda em direcção à ponte. Vou subindo, com um pouco de esforço. Mudo de velocidade repetidas vezes até sentir o andamento menos penoso.

Meia hora depois, para minha surpresa, alcanço Langley. São mais de dez quilómetros de casa, com semáforos e a subir.

O tráfego automóvel já é notório. Meto à direita, pela auto-estrada 10. Evito, quanto posso, as pedras pequenas que abundam. Um furo não seria nada agradável. Tenho de estar no porto antes das 10 para apanhar o barco para a ilha de Salt Spring. Qualquer percalço, mínimo que seja, pode comprometer essa possibilidade. Não me convém perdê-lo. O outro barco sai de tarde, às 7:10, e só chega ao destino três horas depois. Será complicado arranjar, no escuro, um parque de campismo. Terei de ficar num hotel e isso não me convém. Contrairia completamente o propósito desta viagem: proponho-me fazê-la do modo mais frugal possível.

(continua)

Memória de Tenerife

A alegria corria descalça entre os pombos irrequietos da Plaza Bolívar. A voz mais bela do mundo amanhecia sobre as palavras. Não era outono nem inverno; eram sementes que voavam entre os dedos. De tão brancos e nocturnos, queria para mim o cântico e os olhos dessa poesia.

Um poeta ama o universo de cada instante. É nesse que estou, agora e sempre, atravessando o oceano da memória.

Agosto

Oiço a música da tarde. Agosto é um mês vazio. O mundo vai-se embora para uma felicidade passageira: perde-se nas praias, entre as árvores de campismo, nas altas montanhas em cujos topos habita agora uma espécie de levitação alvinitente. Cada um, pois, a reinventar a alegria, o descomprometimento. A vida está cheia de rédeas, compromissos, obrigações. Há que fugir dessas fronteiras psicológicas.

Eu estou aqui. Há pássaros nas árvores, a luz é doce e suave ao fim do dia. Bebo água e como frutos como no poema de Odysseus Elytis. Ando de bicicleta. Leio. Aos poucos, lentamente, vou descobrindo nas pedras o poder do mistério. Ou seja:  a voz, a imensa voz do silêncio.

Peregrinatio

Tenho poucos amigos no Verão. Ou escondo-me num poema impossível à procura do mar, ou ando pela brisa, de mota ou bicicleta, a inventar a minha vida.

Hoje o sol foi uma maçã madura caída na tarde. Quando voltei, a esplanada estava vazia. Deixei o capacete e as luvas numa mesa e fui buscar um café.

Sentei-me. Na mesa ao lado dois tipos. Um deles olhava o céu; o outro estava agarrado ao telemóvel, a dizer coisas doces à namorada. Tinha um sorriso de triunfo, imbecil. Palavras cor-de-rosa, previsíveis, vazias. Meu Deus!, tanta poluição sonora!

Eu só queria um pouco de silêncio, receber a noite nos meus braços, os seus fios de luz apagada. Tomar um café e pensar como o mar é lindo e calmo em Setembro.

Fui-me embora o mais rapidamente possível. Encontrei a noite pelo caminho, um túnel de sinais inextricáveis. Acelerei. A brisa, como uma chuva gelada, iluminou-me o caminho.

Passo afogueado, perdido em geografias estrangeiras. Vou de calções, sandálias, e uma velha t-shirt que tem uma frase estranha estampada no peito: “The name of all things”.

Julho é um mês fugidio. Corre como um galgo sobre pedras translúcidas e raras cintilações da alma.

O calor estala numa vibração de claridade. Onde está o mar? Lembro-me de uns olhos escuros, de um mel delicioso. Havia uma costa enorme e inquebráveis ritmos da memória. Pegadas de sombra. Lembro-me que a alegria era uma coisa triste, um pássaro, e eu acabava devagar a última cerveja.

Há coisas assim: bocadinhos do mundo, fulgores. E os dias correm como se eu fugisse do tempo.

Que dizer?

Escrevo neste papel o dia que acaba. Volto às palavras, à sua voz rouca e bela e aninho-me no seu eco. O filho pródigo e ingrato. E assim me extingo, dançando entre vírgulas.

Mister Bento não é um homem velho: ele é o tempo. Está sentado num degrau, à entrada da porta. Ao seu lado, deitado, «Olive», o gato. É um belo felino, de um cinzento-claro aveludado e brilhantes olhos de esmeralda.

A manhã de Junho, clara e doirada, passa devagar. Mister Bento tem os dedos entrelaçados e os braços, que já ergueram pedras e areia, repousam nas pernas. É um guerreiro cansado.

O gato corre ao meu encontro e enrosca-se nas minhas pernas.

– É um tolo – diz Mister Bento.

Não é recriminação mas ternura sem jeito. Os seus olhos, míopes, transmitem um reflexo estranho. «Estou quase cego», disse-me um dia. «Vejo as coisas cheias de nuvens».

– Então, temos figos este ano? –  pergunto.

Adoro figos. Lembro-me sempre das figueiras dos meus tios Veneranda e Guilherme, em Ponta Delgada. Há sempre um Verão intenso nessa memória, melros, lagartos preguiçosos nos escuros muros de magma. Éramos – eu e os meus irmãos – meninos africanos com o mar dos Açores ao fundo da rua.

– A figueira morreu –  diz Mister Bento piscando os olhos. – O Inverno matou-a.

Há no seu tom uma resignação triste, sábia.

Fico pesaroso. Era uma árvore lindíssima. Quando olhava para cima, por entre as folhas e os ramos, brilhava o azul do céu. Lembro-me de, certa vez, ouvir um pica-pau matraquear num candeeiro da rua enquanto colhia um fruto.

Toco no tronco seco – parece-me as costas magras de um velho. O sol é duro, navega entre os meus dedos.

Mister Bento está calado. «Olive», o gato, persegue uma borboleta branca, minúscula, entre a relva.

Há dias em que as palavras me cansam. Sinto-as nos bolsos como pedras, nas unhas como aves predadoras. Farto-me delas como dos presunçosos e aborrecidos.

Não as amo, não as venero. Como as mãos, estão aqui sobre os joelhos. Fazem parte deste corpo. Não penso nelas: são a voz dos meus dedos. Mas cansam-me, invisíveis na sua nomenclatura simbólica.

Prefiro o mar, esse que não tenho, tropical, morno, e água de coco na boca. Prefiro a companhia de uma mulher. Prefiro uma mota, uma máquina fotográfica e um papagaio de papel a subir numa rua de Luanda. Prefiro um uísque num pátio mexicano, um merengue, um samba ao cair da tarde. Prefiro dançar descalço na areia e sob palmeiras. Prefiro viver numa jangada nas correntes doces de um rio, esquecer-me, esquecer, aprender tudo de novo, e com arte: ser uma criança a correr no coração de um velho.

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