4
A máquina fotográfica, uma pequena Olympus que já levei à Costa Rica e ao Panamá, revelou-se-me pesada de mais. Quando finalmente encosto a bicicleta, à espera de embarcar, ardem-me as costas. Não me sinto cansado. Apenas este desconforto. Não devia ter trazido as lentes avulsas. Mas assim é que se aprende, com os nossos erros.
Enquanto o Paul vai à procura de café, chegam outros ciclistas. Homens de meia-idade, com roupas próprias, ligeiras. Ao contrário de mim, de T-shirt e calções com vários bolsos que dançam, largos, nas minha pernas.
Conversamos um pouco. Vão apenas de passeio até Vitória e regressam hoje mesmo a casa. Vivem perto de Tsawwassen, em White Rock, uma cidade aprazível, cosmopolita, cuja artéria principal, junto à praia, cheia de restaurantes e cafés, explode com vida nos longos e belos dias de Verão. Nos intermináveis invernos que nos afligem, por detrás das vidraças de um jantar romântico e prolongado, White Rock ganha outra fosforescência: a de uma paisagem rendida à memória, cinzenta, em cujos espaços abertos circulam, expectantes, as eternas aves do mar.
A poucos minutos de um funcionário do «ferry» nos acenar para que embarquemos, surgem duas senhoras também de bicicleta. Apressam-se para o local onde aguardamos.
Ambas vêm com sacos, adivinhando que estarão por cá alguns dias de viagem. Entretanto chega o Paul, sorridente, com o seu café.
Um sujeito, de jaqueta amarela, faz-nos sinal. Avançamos silenciosamente pelo barco adentro. Sinto uma alegria infantil apossar-se de mim. Ainda não cresci tanto quanto a minha idade. Vagueio num horizonte de cintilações, irreverente, intemporal. Sou estrangeiro no tempo em que existo.
(continua)
