A importância de ser importante

“Long ago one of the Cynic philosophers strutted through the streets of Athens in a torn mantle to make himself admired by everyone by displaying his contempt for convention. One day Socrates met him and said: ‘I see your vanity through the hole in your mantle.’ Your dirt too, sir, is vanity, and your vanity is dirty.”
― Milan Kundera, Farewell Waltz

/Eduardo Bettencourt Pinto
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A vaidade está mais próxima do ridículo do que o riso do humor. Em certas situações, porém, juntam-se estas quatro variantes.

«Aldrubias», por exemplo, era um rapazote luandense muito pedante cujas idiossincrasias passavam por várias metamorfoses. Mudava segundo as circunstâncias sociais, dominado pelo ambiente. Na escola actuava de uma certa maneira. Na praia ou na rua, de outra. Do seu comportamento em casa, convenhamos, não havia informações. Circulavam umas nuvenzitas pouco sólidas, mais especulativas do que reais.

Podíamos considerá-lo um camaleão. E, nessa qualidade, as suas cores preferidas eram o amarelo e o vermelho. Davam mais nas vistas.

Atirava as pernas para a frente num passo de general convicto, intangível, queixo levantado, as bainhas das calças de boca-de-sino num baile frenético sobre os sapatos pontiagudos, costas erectas, garbosas, cabelo escuro, tão bem tratado que parecia uma permanente copiada a uma tia velhinha. As meninas suspiravam, nervosas, à sua passagem. Os rapazes odiavam-no com o cinismo do sorriso despeitado e palmadinhas de Judas nas costas. Ninguém, nem mesmo os professores, gozavam de tanto prestígio. Nos corredores, ao cruzarem-se com ele, desviavam-se. Nas aulas, intimidados pela sua auréola, evitavam questionar-lhe a inteligência perante os outros. No fundo, «Aldrubias» comandava as tropas como queria, vergadas sob o peso da sua enorme superioridade. Com as suas lendárias histórias de grandeza, não mentia, manipulava a verdade.

Podia ter sido modelo, é claro. Tinha estampa, garbo, altura. O sexo oposto considerava-o bonito, uma brasa, um borracho, um pão como dizem os brasileiros. O que abalou a sua reputação? A inabilidade em manter o protagonismo intocável, vivo, interessante? Ou o absurdo da sua condição de mentiroso para se engrandecer perante os outros?

«Aldrubias» chegava à escola num Mercedes preto. Antes de fechar a porta, olhava em redor. Se via alguém, bradava para o motorista as horas a que este o devia ir buscar. O carro desaparecia, lento, na estrada. Sem olhar para trás, sem um aceno de despedida, «Aldrubias» dirigia-se para o edifício da escola com a altivez de quem ocupava um cargo importante.

Este cenário durou algum tempo. Um dia, porém, o seu firmamento foi posto em causa pelo tom exagerado com que gritou as ordens do costume. O motorista, apercebendo-se do logro de que estava a ser vítima, atirou o chapéu com veemência para o tablier e saiu do carro. Ordenou-lhe que esperasse.

Era um sujeito de estatura média, calças pretas e camisa branca em cujo peito ondeava, sob a claridade matinal, a timidez de uma gravata preta. Parecia uma tempestade de areia. Os seus pés não pisavam o chão, espetavam a terra como as esporas de um galo de combate. Vinha investido de uma energia eléctrica tal que o seu o rosto se tornou incandescente. «Aldrúbias», assustado, deixou cair a pasta com os livros. Nunca vira o pai assim.

Ainda levantou o braço para se defender mas foi logo sacudido por duas violentas bofetadas, tão sonoras que deitaram por terra a sua reputação de menino rico com chauffeur privado.

– Daqui por diante andas a pé, seu palerma!

Mesmo perante aquela humilhação, «Aldrúbias» não podia arrastar-se na penumbra como uma osga assustada. Recolheu os livros e assoprou o pó mal o carro se pôs em movimento. Sentia as faces quentes e o orgulho assaltado por uma grande afronta. Felizmente só as duas raparigas tinham assistido à cena. Seria fácil arranjar uma explicação. Poderia dizer-lhes, por exemplo, que se incompatibilizara com o motorista por uma questão de saias, e que o tinha despedido. Daí a confrontação. Era importante naquele momento recuperar a compostura. Isso sim. Quanto ao pai, ver-se-ia depois. Fintava sempre o velho com uma pinta extraordinária.

A genética de um carteirista

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Foto:Eduardo B. Pinto

/Eduardo Bettencourt Pinto

Abril? Maio? O mês é irrelevante. A luz de Lisboa é quase a mesma, branca, macia, aveludada. Quando desce, porém, pelo fulgor da manhã, parece um sussurro de amor, uma pomba em pleno voo. Espalha–se pela cidade como uma chuva de cristais, arrastando consigo um breve, fino odor a limão. É nesta luz que os poetas soltam as suas aves mais íntimas.

Mas os seres não habitam a cidade da mesma maneira. Uns descem por ela com os sentidos postos em transgressões. São os assaltantes, meros profissionais de um modo de vida sem compromissos com a sociedade, obrigações às Finanças, legitimidade. Talvez com o senhorio, caso não tenham casa própria. Ou com o merceeiro. Apresentam-se lavados, escovados, o ar inocente de um anjo perdido na cidade branca, os sapatos meticulosamente lustrados, barba feita, unhas aparadas, sóbrias, pele das mãos lisas, brilhantes como maçãs. Elas, as mãos, conquistam o inexequível. O prodígio. Aventuram-se nos túneis dos bolsos alheios, ávidas, precisas, silenciosas. E assim alcançam o paraíso.

Alguns possuem aquele ar cinematográfico de James Bond, ou o rosto rígido de James Dean, quero dizer, olhar de metal por trás dos óculos escuros. Mas o pescoço (ao contrário dos actores), embora tenso é surpreendentemente flexível como o de um pato. Não mudam de cor como os camaleões, isso é domínio dos políticos ou dos vendedores de carros usados. Eles são homens práticos, activos. Não cultivam a retórica como modo de vida. São aventureiros de bairro, desses que povoam romances de cordel. Avançam pelos dias com passinhos de corvo, asas amplas, olhar clínico e paciente. Predadores citadinos, dispersam-se por espaços públicos disfarçados de cavalheiros humildes, chefes de família responsáveis, sem aparato nas cores das camisas, ora brancas, imaculadas e sem vincos passadas com esmero, ora bege,  castanho-claro, amarelo discreto. Gostam de passar despercebidos. Quem os vê admira neles o porte humilde, secreto embora, do homem comum que habita a cidade com um perfil de honestidade despido de suspeita. Não se comportam, por exemplo, como os chulos, cheios de anéis, colares de oiro, óculos Rayban, sapatos de marca e cigarro ao canto da boca. Não. Eles, os carteiristas de Lisboa, são os mais honestos profissionais da cidade. As suas qualidades e o seu profissionalismo alcançam um registo de integridade inigualável, se não impossível, de alcançar por qualquer profissional. Não são volúveis. São clínicos, dedicados, eficientes, inventivos. Fluidos. Vêm dotados, desde a nascença, de uma predisposição genética para a arte.

O cavalheiro que se sentou à nossa mesa, e sem ter sido convidado, tinha esse perfil. Surgiu como num golpe de magia, como se tivesse caído de um espaço invisível. De repente, imperceptível e com a leveza de uma pluma, ei-lo sentado à nossa mesa e de costas viradas para nós. Era um homem novo, tão escanhoado que a sua face, lisa e brilhante, só podia ser comparada à frescura de um bebé recém-nascido. Parecia um monhé. Não o das cobras, como no belo poema do poeta moçambicano Rui Knopfli. Mas daqueles homens sombrios, sobrancelhas cerradas e que recordavam personagens de policiais, calças de terylene, camisa aos quadradinhos, olhar mortiço, lânguido, perscrutador. Atirou, certeiro (sem que tivéssemos notado), o casaco para as costas da cadeira do meu lado direito onde eu tinha a máquina fotográfica. O golpe era previsível, simples, praticável. Fácil. Eu era o incauto, de pensamentos a navegarem noutro mundo.

Ainda pensei em cumprimentá-lo pela audácia. Apresentar-me de aperto de mão. Convidá-lo para um aperitivo. Afinal, a tarde de Lisboa estava magnífica e uma brisa fresca sacudia o toldo branco da esplanada. As gaivotas espalhavam-se em pontinhos claros ao fundo de um céu muito azul. Não me pareceu boa ideia, porém. Um artista não gosta que lhe descubram os segredos. Sobretudo que os revelem. Perde a originalidade. O valor. Antes que fosse tarde, peguei na máquina. Ele não teria a coragem de a tirar do meu colo. Seria um golpe fatal, demasiado arriscado. Deixou-se ficar muito tranquilo, a admirar a paisagem. Impávido.

Quando chamei a empregada para pedir a conta, já ele se tinha levantado e desaparecido por entre a multidão.

Se o inesperado, surpreendente visitante tivesse alcançado o que pretendia, levaria consigo mais do que um bom jantar. Teria, no entanto, consciência do real valor do roubo? Certamente poderia contar com a seriedade dos seus “contactos” no telemóvel. Bastava colocar um dedo no visor e logo lhe apareceria o nome de um amigalhaço, pronto a avançar-lhe uns 100 euros pela coisa. Nada de perguntas chatas, indiscretas. No âmbito da ética actual o porreirismo é uma forma elevada de cidadania. Há amigos por toda a parte. Do peito ou sem peito conforme interpretamos os meandros das redes sociais. Cem euros? Por que não? E lá iria ele, todo sorrisos, a massa no bolso. Talvez a assobiar. Talvez a tentar um pontapé num gato qualquer que lhe saltasse ao caminho. Nada de remorsos. Que se lixem os turistas, pensaria ele, essa corja que inunda a cidade só para tomar os copos e aborrecer os locais.

José dos Montes

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Fotografia: Eduardo Bettencourt Pinto

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Tem a fúria do fim da idade. Os seus olhos piscam, pouco vêem. Conseguem, talvez, distinguir a sombra de cada forma que observa, o que resta de um gesto, de uma expressão. O bordão, no qual se apoia, é uma espada, uma perna implacável e dura, o coice e o golpe que surpreendem o mundo. Fala da morte como se fosse uma espécie de vida. Das árvores, porém, guarda as achas de um amor infeliz.

Perdeu-se no tempo a amar a terra com as mãos. Dedicou-lhe o outono da sua vida e toda a luz dos seus olhos. São ásperas agora as suas palavras, instâncias peregrinas do ódio de um homem que as atira ao ar quando a lâmina da efemeridade lhe atravessa, implacável, o coração.

José dos Montes, que acordava com os galos e o rumor bom de uma brisa macia nas oliveiras do quintal, levanta-se agora do seu leito com a melancolia e a solidão do proscrito, consciente do seu degredo. O seu corpo tornou-se uma prisão. Não se consegue evadir. Altos são os muros, inquebráveis as grades das suas noites. Os pensamentos, que foram águias soltas pelos campos, regressaram, vencidas, aos seus ninhos.

José habita a casa como um reduto, como se mil pombas de susto levantassem voo com a sua presença. Atravessa-a todos os dias com a cautela de quem se aventura numa floresta pela primeira vez. Assalta-o o medo dos seus próprios fantasmas, a lembrança de um rosto que o ajudou a construir o mundo, o sorriso cheio de juventude reflectido, feliz, nos vidros da janela. Quando se afasta para o quintal, leva nos passos arrastados uma casa em ruínas.

Os dias crescem, banham as suas costas, curvadas sob os lampejos do Verão. Há um brilho triste no seu corpo frágil e vulnerável, e no jeito como se entrega ao grande vazio da sua alma. Varre a entrada da casa com o vagar de um suspiro. Sabe, no mais fundo de si, que o tempo o traiu: levou-lhe o vigor do corpo, a firmeza dos braços, o orgulho de se olhar ao espelho e ver um homem de pé com todo o gáudio da sua estirpe. Varre adiante de si, com uma enorme vassoura de giesta, os minutos e os segundos dos seus dias. Entra a noite e ele continua a limpar o silêncio que o enreda da cabeça aos pés. Às vezes pensa, aflito, que a eternidade é esse jogo de braços a que se entrega todos os dias, o atirar para trás de si o pó da memória, às vezes tão pesado como um sonho desfeito.

Estrada

varandaViajo de autocarro enquanto a tarde, sob uma luz doirada e fulminante, vai, lentamente, perdendo o seu fulgor na paisagem. Ficam para trás casas tristes no lado esquerdo da estrada, e de cunho austero, cuja antiguidade lhes dá um ar solene e tranquilo; do lado direito, um horizonte de terra seca. Nuvens escuras ameaçam a claridade que resta do azul. Parecem correr em direcção a uma árvore solitária.

Oiço o autocarro rolar na estrada. Uma águia de sombras pontifica nas alturas. Vou para o Norte. O sol que trago do Sul vai-se apagando entre as vírgulas do caderno onde escrevo. Aos poucos a noite veste-se de nudez. Por fim, morrem as palavras, mudas de tanta escuridão. Fica o silêncio, o seu rosto sem forma caído entre as minhas mãos.

Uma casa no meio do mar

casa_e_marOs cães começaram a ladrar mal ouviram os meus passos no corredor. Eram três cadelinhas, pêlo curto, olhar sombrio e assustado. Às sete e meia da manhã ainda estava escuro. A casa dormia, pelo menos até àquele momento em que fizeram soar o alarme.

Para alcançar o quarto de banho tinha de passar por elas, na cozinha. Invadi-lhes o espaço, os restos da noite e o sono. Erguidas dos seus leitos com veemência plástica, foram recuando à minha passagem de olhos cintilantes. Aflito e estarrecido, tentava acalmá-las. Esforço estéril. Com um clamor daqueles, até um urso despertaria da sua profunda hibernação.

Fechei-me na casa de banho. Cada movimento meu, por mais cauteloso, despoletava um novo chorrilho de protestos: a leveza de um passo, um inaudível pingo da torneira, a sombra da mão na toalha de rosto. Muito simplesmente, elas protestavam por qualquer e ininteligível som que eu, por muito cauteloso que fosse, produzia do outro lado da porta. Mesmo que levitasse, estou certo de que a sua apuradíssima audição encontraria, entre os meus passos e o chão, um ressoo ameaçador.

Como dizia o meu pai, eram “feras mansas”. Mas a verdade é que a acústica da cozinha permitia um efeito redobrado e demolidor em estereofónico, cuja polifonia repercutia, qual descarga eléctrica, das paredes às fundações. Não havia remédio para tão inflamado assalto. Deixei-me levar, enfim, pela agitada corrente daquelas águas sonoras. Combatê-las seria prolongar a agitação canina numa hora em que a casa, às escuras como a maioria da cidade de Ponta Delgada, revolvia-se ainda no deleite e na mornidão dos seus lençóis.

Já no resguardo do meu quarto, e sob a ténue luz do candeeiro, sentei-me a ler. Tinha comprado na véspera a reedição do livro Amores da Cadela “Pura”, de Margarida Vitória (Marquesa de Jácome Correia), que reunia dois volumes sob o mesmo título.

Nascida em Ponta Delgada em 1919 num berço da aristocracia açoriana, foi uma mulher belíssima e muito elegante. Mercê de uma vivência cosmopolita e muito liberal para a sua época, experimentou uma vida de privilégios, solidão e amores intensos. Foi conhecida, por exemplo, a sua ligação amorosa a Vitorino Nemésio. Pormenor circunstancial, acrescento. Em assuntos de amor só este se deve pronunciar.

Fui lendo devagar e descobrindo os meandros emocionais e afectivos de uma vida singular.

Quando o pousei, assaltou-me a impressão que sempre tive em relação ao título: não gosto, nunca gostei. Faz sugerir uma leitura brejeira sobre uma pessoa banal e vulgar. O que não é o caso.

Entretanto amanheceu. A casa silenciosa como um templo secular. Fui à janela. Ouvi passos na rua, aproximando-se. Um homem passou, rua abaixo, pisando a frágil luz matinal.

A casa da minha tribo onde agora vive o Carlos, o meu irmão caçula. Quantas gerações do meu sangue passaram por ali? Emociona-me aquele espaço. Há vozes no silêncio das suas paredes, a incólume vertigem do tempo. Passei dois anos e meio da minha infância naquela casa, vindo de África. Como se parte de um tempo que está sempre connosco, quando a memória, como um membro do nosso corpo, nos acompanha para todo o lado?

Vesti-me, peguei na máquina fotográfica e saí.

Ponta Delgada é a cidade mais antiga da minha vida. Aspirei, enlevado, o ar fresco da manhã. Dois sujeitos, o mais novo com ar bonacheirão, aspirou o cigarro e interceptou-me, muito solto a expelir o fumo:

— Bela máquina! O senhor importa-se de nos tirar uma fotografia?

Sentou-se ao lado do amigo no degrau da casa e registei o momento.

Disse-lhes que podiam ver a fotografia na página da Olhares, na Internet.

Ao fim da rua, voltei à esquerda e fui em direcção ao cais. Nuvens brancas e cinzentas desenhavam no céu uma imagem impressionista. Dirigi-me a um pequeno grupo de indivíduos agarrados a canas de pesca. Era muito cedo, suponho, ou tinham apenas temperamento carrancudo. Fui-me embora. Aproveitei a silhueta deles e fiz um registo fotográfico.

Chegaram duas traineiras e fui observá-las. Pessoal irascível, os pescadores. O cansaço da faina nocturna, a impaciência.

Meti-me em direcção ao Campo de S. Francisco. Oiço, quando por lá passo, a voz de minha avó Irene entre os pombos que tristes poisam no banco de Antero de Quental.

Pode ser apenas impressão minha, claro. Mas é assim que vejo as coisas.

/Eduardo Bettencourt Pinto

Noite

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Victor Hugo

Quantas vezes a noite é uma sombra hostil dentro da cabeça? Enfrento isto com frequência. Deito-me com a letargia psicológica de quem se dirige a uma ponte no escuro. Fecho os olhos. Uma nuvem abstracta paira sobre mim, circula o meu corpo como uma ave de rapina. É a escuridão, extasiada e silenciosa, o estranho rumor de um deserto inominável. Afundo-me nas suas águas, vulnerável e incógnito.  Assim permaneço, num espaço sem memória, sustentado pela surpreendente imaginação do subconsciente.

Levanto-me três, quatro horas depois sob a implacável vigilância do despertador. Sinto-me defraudado, confuso como aquele que, às cegas, avança pela impenetrável escuridão de um túnel. Reajo lentamente ao toque sinistro. Apalpo o interruptor do candeeiro, uma, duas vezes. Por fim a luz devolve-me os contornos do mundo real.

Tenho a sensação angustiante de sentir os membros colados. Arrasto-me pelo quarto com a letargia de um proscrito. Persegue-me, quase sempre, a vontade de regressar ao sono, interrompido à uma da manhã. Mas a resiliência triunfa. A abnegação ao trabalho e o sentido de responsabilidade prevalecem. Minutos depois estou na rua em direcção ao carro.

Se é uma noite de luar, e limpa de nuvens, vejo, por entre os ramos dos áceres, cisnes de prata. Seguem em fila, muito alto, numa cadência vagarosa como se nadassem pela noite fora. Arrastam, nas patas cintilantes,  os mais inesperados percursos do sonho. É um quadro de Renoir a preto e branco. Também pode ser, com a sua poderosa luminosidade, o rasgo semântico de uma pincela de Matisse, algo secreto, intensamente vivo, que me surpreende e enleva. É uma tela, um instantâneo onírico. E alegra-me a sua beleza, o seu mistério.

 

Lugar dos Áceres, Março 2016
Eduardo Bettencourt Pinto

Um sábado em Ponta Delgada

Portas da cidade
Foto: Eduardo Bettencourt Pinto

Desço a rua da memória numa manhã de sábado. Uma festa de nuvens gravita ao fundo sobre os velhos telhados. Apesar do tom cinzento e carregado, adivinha-se um ar leve, jucundo. Na ilha, as quatro estações dançam sob os acordes do imprevisto.

Ao chegar à esquina, entre a rua da Vila Nova e a avenida Lisboa, volto à esquerda. Avanço lentamente pelo cinzento do inverno. O passeio está húmido, brilhante. Estas pedras que piso, de basalto, acarinham os meus passos. Caminho sem pressa. Uma ilha é uma ponte para o mar. Vou pela rua como no poema de António Machado:

“Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.”

No Largo 2 de Março noto o senhor Raúl no outro lado do passeio. Tem os contornos de um cavalheiro do princípio do século XX, trajado como um fidalgo, lenço ao pescoço, boquilha, chapéu preto de feltro. Saúda-me com a solenidade de um patriarca, a mão direita ao alto, branca como uma asa de gaivota. (Só aparece de luvas pretas de cabedal nos dias em que o frio incomoda a sua idade). A esmerada educação, os modos e trato são notáveis, exemplares, de uma nobreza que não é comum em qualquer tempo e lugar. Viveu largos anos nos Estados Unidos e viajou muito. Teve um percurso de filme, cheio. Acumulou memórias e experiências. A sua vida apresenta os contornos de um romance de aventuras. “Uma boa parte dos homens – escreveu Ortega y Gasset – não tem mais vida que a das suas palavras, e os seus sentimentos reduzem-se a uma existência oral”. Quando o senhor Raúl fala, porém, há um regresso inevitável a um mundo a preto e branco. O herói das suas histórias não foi traçado a pulso, palavra a palavra, mas sob a romântica visão do seu universo, sustentado por cânone próprio.

Sigo em direcção à livraria O Gil. Encontro o proprietário, o senhor Gil, por trás do balcão. Sorri, amável, com a tranquilidade e a cortesia de sempre. Eduardo, o funcionário, atarefa-se com embrulhos de livros. Pego no semanário O Jornal, pago, e saio. Vou até à porta da Tabacaria Açoriana. Espreito à procura de um rosto conhecido. As mesas todas tomadas. Decido ir ao café Gil cujo proprietário é agora o João, um jovem do Nordeste. Chegou a Ponta Delgada com a vontade férrea de vencer, e conseguiu-o.

Peço um café e sento-me a uma mesa junto à entrada. Folheio o jornal. Sei que não conseguirei ler. De um momento para o outro entrará um amigo que virá juntar-se a mim. Mas este ritual de sábado, do qual nunca prescindo, tem o conforto de um prazer. Não consiste apenas no odor do café e no cheiro do papel impresso, mas na tranquilidade de uma casa enorme com vozes. Tudo isto constitui uma ilha, inumeráveis mistérios poéticos.

Quando sair do café estarei ao pé do mar. Diante de mim, num grande espectáculo de nuvens, barcos, percursos semânticos de aves e um vasto horizonte de luz. Maior do que a minha vida, invadirá todo o meu ser.

Na memória da ilha, todos os sábado são este sábado, um imenso auditório onde canta o mundo.

Lugar dos Áceres, Fev. 2016
Eduardo Bettencourt Pinto