João Cambuta

/Eduardo Bettencourt Pinto João Cambuta está fechado em casa com a mulher. É pequeno e gordinho. No verão, mesmo em casa, nunca usa calções. A pele, protegida dos ardores solares, manteve-se incólume aos estragos do tempo. Tem a frescura de uma romã madura. As feições, … Continue a ler João Cambuta

Vírus

/Eduardo Bettencourt Pinto Faltam-me algumas provisões em casa. Saio. Rua acima, a temperatura é fresca (10 graus). Passo sob um corredor de cerejeiras japonesas – Prunus serrulata – que iluminam o passeio. O sol cintila numa miríade de cristais por entre os ramos. Despontam, tímidos … Continue a ler Vírus

Uma voz entre a chuva

As pessoas falam
saem. As paredes ficam.
Cinquenta e seis poemas

Fernando Martinho Guimarães





/Eduardo Bettencourt Pinto

Os textos de Manuel Cabral, agora reunidos em livro e cujo título é África em mim, apareceram inicialmente na sua página do Facebook. Os seus amigos (suponho que a maioria deles angolanos) receberam-nos com aplauso. Foram muitos os comentários, afectuosos e encomiásticos, sugerindo que os publicasse em livro.

O desafio cresceu e tomou-se de urgências. Para MC foi um caminho novo a explorar. Estaria, contudo, o autor de textos tão honestamente íntimos e evocativos de um tempo angolano, marcante e indelével, preparado para enfrentar a edição das suas memórias? Teria, claro, de ter em conta que a publicação de um livro tem os seus riscos. Em tempos como estes, de padrinhos e madrinhas, amiguinhos e amiguinhas nos sítios certos, é difícil penetrar na difícil floresta da literatura sem qualquer tipo de apoio. A sua determinação, porém, mitigou-lhe os óbices: tratou ele mesmo da sua publicação.

África em mim, uma edição de autor, junta 15 textos, escorridos e memorialistas ao longo de 51 páginas que se leem de um fôlego. Se nos fica a sensação de ser pouco, não é por ser questionável a qualidade dos textos. São bem redigidos, de pulso seguro e atento às regras da língua. Aqui e ali notam-se os alicerces de um fulgor criativo que revela a desenvoltura semântica de quem exige das palavras algo mais do que um mero veículo de comunicação de factos e sentimentos. Exatamente por reunirem estas características (o gosto de narrar e a integridade da escrita), se tornam mais visíveis, mais aparentes, os traços da sua economia. Queremos ouvir com mais profundidade o rumor líquido das palavras, conhecer melhor o caráter e a alma daqueles que aparecem nestas páginas sob os traços coloridos do seu afeto, filtrados pela melancolia da sua irremediável ausência. O autor evoca-os com a serenidade e o calor de quem dignifica com o seu abraço emocionado aquelas figuras de relevo que povoaram o seu passado, mormente os pais no seu quotidiano no Sul de Angola, na luta pela vida, nada fácil. São pessoas humildes, honestas no seu modo de vida, retratadas no seu microcosmo com teor rural e em cujo mito africano se contextualiza a sua expansibilidade.

Manuel Cabral pertence à «última geração» de angolanos brancos, aquela que abraçou uma angolanidade muito mais abrangente do que as gerações anteriores, por via das vivências descomplexadas que se desenvolveram, desde a convivência nos bancos da escola entre brancos, negros e mestiços, até às posições profissionais. Não era uma situação ideal mas um princípio. Muito havia ainda por fazer. Convém no entanto recordar que estávamos sob o controlo de um regime prepotente, e que nos amordaçava a todos desde Lisboa cujos tentáculos abrangiam com furor todas as «províncias ultramarinas», consideradas, como se sabe, território nacional. Infelizmente, com o golpe de estado de Abril, veio o caos. Os responsáveis foram muitos, desde o Governo de transição em Portugal, que lavou as mãos nas águas sujas da História e abandonou Angola, vulnerável agora ao desencontro ideológico dos três movimentos, MPLA, UNITA e FNLA, que passaram a um regime de conflito com vista a obterem o poder sob o canto mortífero das armas. Violência generalizada, total impunidade nos crimes perpetrados, fuga em massa daqueles que podiam escapar ao clima de guerra, por terra, pontes aéreas e pelo mar, enquanto a influência estrangeira se ia fazendo notar com os seus conselheiros e estrategas de guerra, a soldados, armamento e o mais que a loucura desenfreada daqueles tempos foi capaz de engendrar.

Como tantos outros, MC, que nasceu no Sul de Angola, viu-se forçado a abandonar a terra natal em 15 de Agosto de 1975 em virtude da guerra civil, agora generalizada. Radicou-se com a família em Portugal continental, com excepção dos cinco anos que esteve nos Açores (Ponta Delgada), entre 1978 e 1983, exercendo o professorado à noite enquanto tirava a licenciatura na Universidade dos Açores. Foi professor durante 35 anos. Abandonou a profissão em 2012, desmotivado com o ensino por lhe parecer ter entrado em degradação. Há 44 anos que vive em Portugal. Abraçou o país como seu, integrou-se. No entanto, nunca perdeu o grau de intensidade em relação ao seu passado africano, recordado nestas páginas com a mais comovente eloquência e magnanimidade.

Filho de pais angolanos (o pai nasceu na Chibia em 1900 e a mãe no Lubango em 1913, ambos de raízes madeirenses), Manuel Cabral cresceu sob a influência telúrica e social angolana. Sensível e atento, empático e responsável, cedo compreendeu as dificuldades que os pais enfrentavam na luta diária por uma vida condigna e sustentada pelos inalienáveis valores da honestidade. Inteligente e sequioso pelo saber, agarrou-se aos estudos com determinação. Fez dos anos escolares uma passagem empenhada em crescer intelectualmente com vista ao seu enriquecimento pessoal.

A figura materna ocupa um polo luminoso, um halo central e emblemático na maneira como a recorda: «A minha mãe casou-se aos quinze anos de idade e teve dez filhos. Tinha olhos azuis, cor que nenhum filho herdou e que todos gostariam de ter, não por serem azuis mas por ser a cor dos seus olhos». A beleza destas palavras e destes sentimentos coadunam-se com o seu perfil de humanista, de órfão de pais e de uma terra que não viu, por infortúnio, ver crescer como um país.

O seu empenho nestes belos e sentidos textos é mais do que um exercício sentimental. É a afirmação serena de um passado quantas vezes hostilizado por vozes ignorantes e racistas e em cuja hostilidade se espraia a arrogância perante aquilo que se desconhece. O autor sabe isso, viveu essa experiência de acusações fúteis e insensíveis perante aqueles que partiram de África, não só traumatizados com todo o processo de descolonização que descambou no caos, mas também pela situação de penúria e injustiças várias em que caíram devido a tudo isso.

A sua nota introdutória é um pedido a todos aqueles que, como ele, nasceram em Angola: «Fica o desejo de que outras vozes se façam ouvir com outras histórias para que surja uma visão nova e mais justa sobre tempos ensombrados pelos condicionalismo da História».

Chegamos pois a uma altura cada vez mais pertinente para que se desmistifiquem equívocos ainda persistentes, e com a serenidade e o calor desta voz, agora a ouvir-se entre o sussurro sombrio dos dias.

O triunfo da obscuridade

 

/Eduardo Bettencourt Pinto

 

Penso muitas vezes nesta frase, carregada de simbolismo, de um verso do poeta Mahmoud Darwish: “Não perguntámos por que razão o homem não nasce das árvores por forma a renascer na Primavera”.

A vida das árvores não é eterna, ao contrário da terra e das pedras. O poeta, o grande poeta, sabia isso. Darwish buscava a transformação do ser, uma génese renovada dentro dos limites da efemeridade que nos cerca desde que nascemos. Estamos condenados ao inevitável. Ele acreditava na necessidade da renovação do homem, tão vulnerável ao declínio físico e espiritual. Mahmoud Darwish desejava que o outono humano não fosse o prelúdio do seu fim mas o início de um novo ciclo existencial, limpo, puro, fresco e sem mácula. “As nossas ruínas estão adiante de nós e para trás estão os nossos absurdos objectivos” frisa lapidarmente no mesmo poema.

Chegámos ao declínio dos tempos? O materialismo desenfreado, a sede de exibição e protagonismo tão evidentes nas redes sociais, a decadência ética e moral dos líderes políticos (e até religiosos), a corrupção desenfreada, tanto em países desenvolvidos como nos do terceiro-mundo, desde ao nível governamental ao privado. Se tudo isso não bastasse, estamos agora perante o estranho e preocupante fenómeno que se levanta das massas alegremente radicais. Abraçadas com fervor a ideologias de direita, ressuscitam nacionalismos perversos e intolerantes inspirados nas páginas mais indignas da História. São elas, bem vistas as coisas, os responsáveis pela eleição de figuras indescritíveis e perigosas como Donald Trump, Putin, Robert Mugabe e tantos outros. Se tudo isto não indica um caminhar para o fim, demonstra pelo menos um enorme e preocupante retrocesso civilizacional e ideológico.

Como parar esta corrida para o absurdo? Está perto o abismo? Trata-se, claro, de uma questão que nos ultrapassa. Mas pelo menos sabemos que estamos demasiadamente divididos entre nós e os outros. No fundo, somos uma entidade egoísta, decadente e susceptível. Assusta-nos o que é diferente e que não vai ao encontro do nosso imaginário colectivo. Fazemos disso um argumento justificador da nossa incapacidade em aceitar e compreender os outros, aqueles que não se parecem connosco fisicamente, ou no vestir, na cor da pele, na pronúncia, na língua e nos costumes culturais.

Vivemos tempos de uma grande vulnerabilidade. O nosso planeta arde no Verão; no Inverno afoga-nos com chuvas diluviais. Atrás fica um cenário confrangedor de destruição e caos como aquele que aconteceu recentemente em Moçambique. À mistura, tremores de terra e tsunamis. Grande parte disto acontece como consequência da intervenção humana, da sua insensatez, da ambição desmedida e controladora de poderosos lóbis financeiros que vão sorrateiramente assenhorando-se e destruindo os nossos recursos naturais e alterando o curso natural do meio-ambiente. Um presidente desmiolado, como foi George Bush, pode, num repente, virar tudo isto do avesso. Se uma pedra na mão de um imbecil pode resultar numa calamidade, na de um artista uma obra de arte. Assim é a natureza humana. Ninguém a pode mudar. Líderes destes, pois, como Bush, megalómanos, acéfalos e moralmente ignóbeis, continuam a deixar atrás de si um incrível rasto de destruição numa euforia criminosa e sem consequências como foi a invasão do Iraque. “A guerra do Iraque não foi uma tragédia. Tem os contornos de um crime, resultado da incompetência boçal daqueles que orquestraram uma guerra de prevenção, compreensivelmente ilegal, numa atmosfera de pânico em sequência das ocorrências do 9/11”*. Li isto recentemente no The New York Times num texto de Andrew J. Bacevich.

A renovação do homem só pode acontecer com uma nova trajectória espiritual. A humanidade corre desenfreadamente para a escuridão. Estamos a ficar politicamente cegos. Não vemos onde se afundam os nossos sonhos, os nossos pés. Cobre-nos a neblina da indiferença. O que importa é o que se passa no ecrã dos telemóveis, à distância, alheios que estamos a tudo o que passa ao nosso redor. Passamos a viver de olhos postos no frenesi dos “likes”, nos relatos públicos onde choramos e rimos tão abertamente que não há mistério que reste de nós. Sentados à mesa do mundo virtual, damos conta do nosso apetite algures numa praia solar. Aos que estão perto, no entanto, não abrimos a porta da nossa casa.

Viva a impassível glória do absurdo.

* Tradução livre.

 

Instantaneus

bulbs/Eduardo Bettencourt Pinto

Guardar na terra

Teodoro, o esquilo, passa a correr, a cauda no ar. É ligeiro. Trepa pela cerca, seguro como se estivesse no chão, e logo desaparece. Vive escondido entre os áceres. Tem pêlo negro, sadio, e olhos brilhantes como duas pedras preciosas. Sinto por ele o carinho que nutro pela fresca brisa do Estio quando o ar, insuportável e quente, me derruba até à exaustão. Há uma frescura imensa neste pequeno ser, no seu rumor de silêncio, na fragilidade e na graça do corpinho. Vem com a nobre missão de plantar amendoins entre as plantas do jardim. É precavido, frugal, e de boa memória.

Volta sempre. Lança as mãozinhas à terra com a subtileza de um lavrador de sonhos e cava com infalível pontaria até reaver o tesouro que deixou em dia de abundância. Descasca o amendoim sentado, atento a tudo ao seu redor. Come sempre da mesma maneira, urgente, como se fosse a última coisa que estivesse a fazer neste mundo.

Nem todos os vizinhos gostam dele.

Fay, de óculos escuros, levanta o braço num gesto de confrangimento.

Não gosto desses bichos! – diz. – Não passam de ratos, inconvenientes e sujos. Repare nas cascas que ele deixou atrás. Devíamos correr com eles à vassourada.

Ao encontro da memória

Em noites brancas oiço, perto, os coiotes. Quantas vezes penso levantar-me, pegar numa lanterna, ir ao seu encontro. Mas as noites, por esta altura do ano, são frias. Não apetece sair da cama quente. Também não posso garantir que os veja. Eles são a noite. Movem-se no escuro como ninguém, vogam sobre a escuridão.

Minha mãe ouvia o farejar das hienas junto à porta. Seria imprudente ir espreitar, o meu pai ausente na Gabela, nós, os meninos, na idade ainda dos frutos verdes. Estávamos no Sul de Angola. Corriam, lentos, os anos cinquenta.

Oiço os coiotes, plangentes, na penumbra do meu quarto. Chove devagarinho e tarda a Primavera.

Acendo a luz do candeeiro e verifico as horas. Até ao amanhecer, vai levar muito tempo. Pego num livro. Minha mãe no pensamento, as Salinas, as hienas. Agora os coiotes, a noite branca, funda, o irresistível, incontornável sentimento de nostalgia aquecendo-me como um cobertor.

Altivez

Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes.
William Shakespeare

A cor das árvores parecia ter saído de uma tela de Matisse. O homem, sentado na esplanada, partilhava a mesa com outro. O seu olhar vagueava pelos grupos dispersos à sua volta. Não lhe interessava o fulgor, a extraordinária beleza dos jacarandás (jacaranda mimosifoli). Observava, muito atento, as outras mesas. Era um homem pequeno, ombros femininos, muito penteado. Tinha ares de juiz sentado numa poltrona faustosa. Os olhos, iluminados pela fosforescência da tarde, brilhavam de cinismo por trás das lentes dos óculos.

Nunca vi tanto escritor menor à minha volta – disse para o amigo.

Os lábios, muito finos, desenharam um sorriso de escárnio entre duas pequenas rugas nos cantos da boca.

O outro anuiu com um gesto de cabeça, levantando o copo de cerveja.

Não podia concordar mais…

O escritor, o grande escritor, antes de juntar as mãos pequeninas para as esfregar uma à outra, virou a sublime cabeça na direcção do solícito empregado. Por entre os dentes desalinhados sibilou, mais uma vez, a voz fininha como se estivesse a dar ordens a um cachorrinho:

Traga-me outro Chivas com duas pedras de gelo.

O cordeiro

Andei às voltas e não consegui encontrar o laboratório. Decidi entrar num restaurante. Talvez soubessem.

De pé, junto ao balcão, um cliente. Por trás, a jovem empregada que o atendia. Reparei numa senhora de meia-idade ao fundo. Dirigi-me a ela.

Boa tarde. Preciso apenas de uma informação. Pode indicar-me por favor onde fica o Lab?

Ela fixou-me um olhar vazio e não respondeu.

Nesse momento saiu da cozinha um homem idoso. Devia ser o marido. Repeti a pergunta.

Quer lamb? – disse.

Ouve mal, pensei.

Disse-lhe que não. Queria apenas saber onde ficava o lab. Voltou a responder-me com a mesma pergunta.

Em inglês, lab (diminutivo de laboratório) e lamb (cordeiro) são palavras homófonas e fáceis de confundir, sobretudo para quem não conhece bem a língua.

Desta vez, porém, a rapariga que servia o freguês interveio. Pareceu-me ser a filha do casal de emigrantes. Achei ser mais eficaz não usar o diminutivo.

Estou à procura do l-a-b-o-r-a-t-ó-r-i-o onde se tiram análises. Disseram-me que fica por aqui. Sabe onde é?

Ela olhou para mim como se eu tivesse dito um disparate. Frustrado, estava decidido a ir-me embora. Foi o cliente, porém, que ao ver-me enredado nesta confusão linguística e sem remédio me explicou onde era o local.

Respirei fundo ao abrir a porta. Saí para uma Primavera chuvosa mas já com a ternura de uma magnólia a florir no passeio.

A menina que envelheceu

Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.
Charles Bukowski

As mãos, pequenas, são frágeis como as de uma menina que parou de crescer logo a seguir à infância. Absorta, brinca com o guardanapo.

Após o jantar, esvaziou-se a sala. Só ela permanece à mesa, numa lassidão inescrutável.

Os vidros da janela estão húmidos da chuva. Está vento. Um frio desagradável mantém o jardim, para onde ela olha, vazio.

Estou à espera da minha mãe – diz-me em italiano. – Vem por ali –, e aponta o corredor que ladeia o prédio em frente.

Começa a escurecer nos seus olhos.

Acaba ali os dias, sentada numa cadeira de rodas e sob o enorme peso da velhice.

Quando ali chegou, passava o dia a andar pelos corredores de mala na mão. Depois as pernas abandonaram-na e a sua longevidade minguou-lhe o corpo e a mente. Mistura com frequência inglês e italiano numa dicotomia ininteligível.

Isabella guarda nas mãos o rumor de flores murchas.

Tento imaginar que história de vida se esconde na sua figura de sombra. Imóvel, alheia, absorta, é uma irradiação que subitamente perdeu o fulgor. Contra a janela que escurece, a silhueta dos seus cabelos brancos vai-se tornando mais visível contra o rubor do céu.

Não tardará a apagar-se de encontro ao vazio.

Onde estás, Bárbara?

Quando passo por ele, sentado na cadeira de rodas, paro e tento conversar um pouco. Tem olhos azuis, de um azul sem nuvens, e expressão de menino perdido no Tempo.

O rosto ilumina-se com a brevidade de um raio de luz. Pergunta, triste, triste, como se o mundo tivesse acabado aos seus pés:

— Estou à procura de Bárbara, a minha mulher. Não sei onde está. Viu-a?

Já vi a sede de um rio correr pela terra, a curva longa do adeus num gesto de despedida. Já vi homens pobres com montanhas às costas, uma pedra a cantar no alvor da Primavera. Mas nunca vi, até agora, um homem chorar assim, olhos secos, as mãos vazias,  cheias de uma vida rente ao pó.

— Bárbara, Bárbara! Onde estás, Bárbara?

Há um homem com o teu nome na boca, no coração, na garganta, nas veias e nas pernas  mortas como as areias do deserto.

Responde, Bárbara. Onde estás, Bárbara?