Mês: Fevereiro 2008

Diário de uma amnésia (parte I)

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1

Entrei no avião com a rotina de sempre. Arrumei o saco com a máquina fotográfica no compartimento acima da cadeira. O outro, com revistas e livros, deixei-o junto aos pés. Além do Livro de Crónicas de António Melo Antunes, que levava de casa, tinha comprado no aeroporto de Vancouver Nieve en La Habana, em espanhol, do cubano Carlos Eire. Era um voo longo de 9 horas e 20 minutos e havia que estar prevenido. Lembro-me de ter conversado brevemente com o Zé Carlos Teixeira, de partes de um filme, e de um sujeito miudinho, de aspecto macambúzio, que se sentou ao meu lado. O resto esvaiu-se da minha memória.
Acordei na ambulância, em Frankfurt. Que chatice!, sou muito novo para estes dramas, pensei. Sentia uma profunda consternação e desapontamento enquanto me levavam para o serviço de urgência.
Após quatro horas de assistência, e porque me acharam incoerente nas respostas que dava, fui transferido para a clínica Städtishe Kliniken, em Höchst, Frankfurt.

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2

A minha cama estava junto à janela. Por ela entrava, fulgurante, a claridade de Fevereiro. Fixei-me no vaso do parapeito com uma flor artificial, de um vermelho esvaído, frio. Depois no céu, muito azul. Tentei refazer mentalmente os episódios das últimas 24 horas. Mas viajava num túnel de escuridão.
Entretanto foram buscar-me para testes. Quando voltei ao quarto, não sei quanto tempo depois, começava a escurecer. George, o meu companheiro de quarto, jantava na pequena mesa que partilhávamos. Conversámos brevemente.
– Tem fome? – perguntou mais tarde, soerguendo-se na cama. Eram cerca de sete horas da noite. Não tinha comido nada até aquele momento.
Ele chamou a enfermeira. Minutos depois ela trazia uma sandes, fruta e chá. Comi, a pensar no vazio.

3

Dormir mal. O George ressonava alto. A certo momento voltou-se na sua cama e deixei de o ouvir. As cortinas abertas, a noite a inundar o espaço. Pensar, reconstruir os últimos minutos, os passos, a voz, o olhar. Tudo, no entanto, tão pobre e vulnerável dentro de mim. Sem memória. Sentia-me parte da seda nocturna, a respirar mais por instinto do que convicção. Um silêncio de cidade a descansar nos seus alicerces, o céu sem vida e cor para além dos vidros.
De súbito passos no corredor, uma mão na fechadura da porta. A enfermeira deu uns passos dentro do quarto, espreitou as camas e foi-se embora.
Vontade de acender a luz e ler. Mas não queria, não devia incomodar o companheiro de quarto. Fiquei muito quieto, virado para a janela, horas a fio. A madrugada, por fim, caiu como um imenso pássaro amarelo.

4

Após o pequeno-almoço, saí do quarto. Encontrei no corredor um sujeito de meia-idade a regar as plantas do parapeito. Tinha óculos de aros redondos, cabelo escuro e curto. Estava de pijamas. Suspendeu o regador de plástico quando o abordei.
– Chamo-me Raju – disse com um sorriso. – Se não for eu a regar as plantas, ninguém o faz.
Estava há três semanas no hospital. Até ali, submetido a vários testes, nada de conclusivo. Uma exasperação.
Corria todos os dias. Fazia exercício. Certo dia, porém, os joelhos começaram a doer-lhe. Foi ao médico. Apreensivo, este mandou-o para a clínica de neurologia do hospital.
– Dou em doido aqui – disse. – Ninguém fala.
Acompanhei-o ao longo do corredor até ao último vaso. Regava com carinho, como se as plantas fossem suas. Um homem bom.
Nasceu na Índia e estava na Alemanha há muitos anos. Conversámos sentados a um canto, perto de uma janela.
Mostrou-me o quarto. O companheiro era um homem de cabelos brancos e olhar fixo. Saudei-o. Ele reparou em mim com um baço olhar de vidro, sem corresponder à saudação.
– Não regula bem da cabeça – disse Raju. – Não devia estar aqui.
Mais tarde, logo após o almoço, foi ao meu quarto. Eu distraía-me a olhar as imagens mudas da televisão. George, o companheiro de quarto, esperava a visita da família.
– Vou ver o meu cão – disse. – Não come na minha ausência.
Vestia um sobretudo preto, longo, caído abaixo dos joelhos. Levava uma carapuça na cabeça e, muito enrolado ao pescoço, um cachecol.
– Passo por aqui quando voltar de casa a ver se está tudo bem consigo.
Fechou a porta de mansinho e saiu.

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(Uma das plantas de Raju)

Carnaval em Luanda

Os calções no zumbido da velocidade, a fuba (farinha de milho) enrolada num pequeno embrulho de jornal. Um conterra negro de repente ficou com a cara branca. Furioso, quis castigar o miúdo pela afronta. Insultou a mãe do pequeno agressor, depois lembrou-se que era Carnaval e riu-se.
Nesse mesmo dia o Pancho Villa, num acto de loucura, atirou uma papaia a um sujeito de balalaica branca. O homem ficou com aquela coisa pregada à roupa, uma barba amarela e viscosa que lhe descia o peito e se perdia entre a roupa e os pêlos torácicos. O tipo puxou de uma gramática incrível de insultos, ao mesmo tempo que passava a língua pelo suco do fruto. Tirou muito à pressa um lenço das calças e começou a limpar-se. O Pancho Villa, muito sério, mantinha-se vigilante com a mão direita apertada à muleta de metal. Mal limpou os olhos, o cavalheiro viu diante de si aquele miúdo com ar assustado, um pouco inclinado para a frente e em posição defensiva. Então preparou a mão peluda para a chapada, que foi recebida com um rol de muletadas. O Pancho Villa, apesar de aleijado das pernas, tinha nos braços batatas de halterofilista e uma vontade incrível de dar porrada a Luanda inteira.
O muadiê da balalaica recuou perante tão impenetrável barreira. Num grande momento de clarividência resolveu continuar o seu caminho pela rua Coronel Artur de Paiva abaixo, num coxeio de sapo com reumatismo e a trocar os às e os bês no seu impenetrável código de vulgaridades.
– Passa lá os vinte paus – disse o Pancho ao Rui, o candengue mais balado da rua. O aldrabão tentou furtar-se a pagar a aposta perdida, engendrando desculpas desconexas.
– Passa lá os vinte paus – voltou o Pancho Villa, agora com a mão de ferro na garganta do Rui. A pressão deixou na cara do menino rico as cores do arco-íris, até se tornar vermelha como os tomates da Dona Aurora, uma senhora mulata que era costureira e tratava todos os polícias por tu. Num momento de desespero o Rui meteu a mão no bolso e resgatou a nota renitente de vinte escudos.
Foi nesse incomparável dia que o Rui, em face dos acontecimentos e falta de palavra, começou a chamar-se Camaleão.

Glossário de termos angolanos

Candengue: miúdo
Balado: endinheirado
Puto: Portugal
Muadiê: tipo, gajo

Retrato antigo

Passa os dedos pela lombada dos livros. O pó do Tempo esvoaça, cobre-lhe as unhas, entra-lhe nos pulmões. O candeeiro da secretário aceso. Numa das paredes um nu de Picasso. Tantas palavras, meu Deus!, pensa, correndo a polpa dos dedos suavemente pelos volumes na estante de mogno. Abre um volume e, com uma lupa, começa a contá-las enquanto a noite se ocupa dos espaços da casa e a fecha sob um denso manto de escuridão.
A madrugada surpreende–o sentado à secretária a murmurar números, olhando-se num espelho sobre o tampo. Não consegue distinguir na imagem que vê a fisionomia de um deus. Vê apenas os riscos das dunas mais antigas – o rosto de um homem no fim, amando-se a si mesmo com a precaridade das areias.

Momento

Diviso, do outro lado dos ramos, a luz. É uma claridade frágil. Parece-me o rosto de um velho iluminado por um sorriso. Vejo isto como se fosse uma cadência musical, a extinguir-se aos poucos.
A luz vai-se, enfim. Fica a névoa e um torpor frio. Fevereiro é assim, uma estátua no parque, os braços abertos à neve, à chuva e ao vento.
Sou um cão sem trela entre as árvores. A minha vida são estas raízes de névoa, e sobre as quais passo, sem pressa, farejando o mundo.

Gordon

Foi-se embora o Gordon, antes do Natal. Era um homem possante, organizado como um joalheiro antigo. Tinha mãos de lenhador, habituadas ao ferro, aos tachos e aspiradores da sua vida sozinha.
Sofreu muito, antes de se ir embora. Meses. Um século.
O corpo, que era como o do Tarzan Taborda dos meus tempos angolanos, ficou leve e frágil como uma folha de jacarandá. Queria ficar. Pelos pouquíssimos amigos que tinha, o gato, um bichano triste e solitário que o amava como a um pai, a bicicleta, e os longos, preguiçosos dias de Verão.
Ante tudo isto penso: Um homem é uma árvore dos campos à mercê das intempéries. Ninguém é forte o suficiente para nadar incólume até a outra margem da nossa efemeridade.
Viver, pois, do modo como o Gordon gostava. Cheio de coisas simples e de uma alegria infantil, magoada embora pelos ventos cruzados do seu agreste destino.
Deixo aqui uma haste de chuva sobre a sua ausência.

A mãe das gaivotas

Ela sai do carro com um saco plástico. É uma senhora de meia-idade. Olha em redor até avistar as gaivotas. Estão num pequeno bando num lado vazio do parque de estacionamento. Mal a vêem, as aves levantam voo na sua direcção. Voam em círculos. Ela então abre o saco e atira comida para o chão. Depois afasta-se e põe-se a observá-las.
Vai ali todos os sábados.
Uma vez, foi interceptada por uma mulher de café na mão:
– Não devia estar a dar comida às gaivotas, sabe? É contra a lei. Além disso pode fazer-lhes mal.
A mãe das gaivotas olhou-a com curiosidade. Então perguntou:
– Já tomou o pequeno-almoço?
– Não tem nada a ver com isso – respondeu a outra de modo brusco.
– Concordo, tem razão.  Então porque se mete na vida outros?
– Não estou a meter-me na sua vida. O que está a fazer é contra a lei.
– Qual lei? A da fome?
A cidadã preocupada com a lei fez um trejeito de desdém e foi-se embora, acossada por uma nuvem de insignificância.

A mulher da escada

Uma mulher negra, grávida, descia a longa, íngreme escada. De repente falhou-lhe o pé, enfiado num chinelo de borracha. Vi-lhe o horror nos olhos, antes da queda. O grito reverberou até ao impacto no chão de relva.
Que fazer? Corri para o telefone. Desorientado, voltei à janela sem discar o número de emergência. Rodeada de gente, ventre para cima, ela murmurava algo que eu não conseguia ouvir. Foi então que acordei.
Fui à cozinha e bebi um copo de água. Aproximei-me da janela. A noite branca, gelada, invernal. Tem estado assim há semanas, a neve.
Pousei o copo na mesa, incomodado com o sonho. África, sempre. A sua realidade crua em metáforas, imagens, sonhos.
Voltei a deitar-me. Acordado, de olhos fechados, pensando. A escuridão, a noite branca lá fora. Uma escada de contradições rente aos pés.
Subir ou descer?