Gordon

Foi-se embora o Gordon, antes do Natal. Era um homem possante, organizado como um joalheiro antigo. Tinha mãos de lenhador, habituadas ao ferro, aos tachos e aspiradores da sua vida sozinha.
Sofreu muito, antes de se ir embora. Meses. Um século.
O corpo, que era como o do Tarzan Taborda dos meus tempos angolanos, ficou leve e frágil como uma folha de jacarandá. Queria ficar. Pelos pouquíssimos amigos que tinha, o gato, um bichano triste e solitário que o amava como a um pai, a bicicleta, e os longos, preguiçosos dias de Verão.
Ante tudo isto penso: Um homem é uma árvore dos campos à mercê das intempéries. Ninguém é forte o suficiente para nadar incólume até a outra margem da nossa efemeridade.
Viver, pois, do modo como o Gordon gostava. Cheio de coisas simples e de uma alegria infantil, magoada embora pelos ventos cruzados do seu agreste destino.
Deixo aqui uma haste de chuva sobre a sua ausência.

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2 pensamentos sobre “Gordon

  1. Gardénia

    Ao Eduardo, que me apresentou Mestre Gardénia

    Mestre Gardénia era um velho joalheiro com mãos de lenhador. Mas como se pode ser joalheiro com mãos assim? Mestre Gardénia (tinha o nome de uma flor, do jasmim-do-cabo) costumava dizer que era um lenhador que tratava bem das árvores, como um homem deve tratar uma mulher por quem esteja apaixonado. Um homem é como “uma árvore dos campos”, sempre “à mercê das intempéries”, quer das do clima, quer das do amor, filosofava. Era por isso que, quando trabalhava uma filigrana, um anel de ouro fino, ou uns brincos de prata com cristais, as suas mãos tornavam-se macias como o musgo que cobriam os troncos, os seus dedos flexíveis como os ramos. E como as árvores do campo, estava habituado a enfrentar a chuva (de fogo) quando soldava, o vento (dos foles) quando soprava sobre o metal aquecido.
    Forte e grande como um embondeiro africano, também como um embondeiro foi envelhecendo devagar e perdendo a força. E assim a grande árvore foi-se transformando num leve jacarandá. Cada vez mais as pessoas e as coisas por que se interessava foram rareando em número. Um amigo poeta, o gato rom-rom, uma bicicleta e os tépidos dias de Verão. Uma vida simples, gostos simples. Mas aos poucos foi ficando cada vez mais só, o gato morreu, a bicicleta foi roubada, o amigo poeta mudou-se para outra terra. Um dia, ao final da tarde, quando o sol era apenas um pontinho no horizonte, mestre Gardénia desapareceu para sempre, desta vez levado “pelos ventos cruzados do seu agreste destino”. Mas quis o poeta seu amigo deixar no jardim da sua ausência “uma haste de chuva” a florir.

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