Momento

Diviso, do outro lado dos ramos, a luz. É uma claridade frágil. Parece-me o rosto de um velho iluminado por um sorriso. Vejo isto como se fosse uma cadência musical, a extinguir-se aos poucos.
A luz vai-se, enfim. Fica a névoa e um torpor frio. Fevereiro é assim, uma estátua no parque, os braços abertos à neve, à chuva e ao vento.
Sou um cão sem trela entre as árvores. A minha vida são estas raízes de névoa, e sobre as quais passo, sem pressa, farejando o mundo.

Anúncios

Um pensamento sobre “Momento

  1. Frio

    Há uma claridade leve, quase etérea, que me chega de entre os ramos das cerejeiras. Lembra-me o rosto vago de um ancião que, aos poucos, se vai extinguindo como se fosse música.
    Até chegar a noite em fevereiro, fria e escura, há largos e pracetas vazias, papelinhos que o vento leva, poucas aves que se enrolam sobre si mesmas para se aquecerem, estátuas que cobrem o bronze com uma película de verde de líquen para o frio não entrar, a chuva a cair como se fosse gelo líquido.
    Vagueio por entre as árvores à procura de um raio de sol esquecido. Mas o que encontro são apenas raízes descobertas do nevoeiro que me fazem tropeçar. Levanto a cabeça e olho por entre os ramos, devagar, farejando o sol.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s