Carnaval em Luanda

Os calções no zumbido da velocidade, a fuba (farinha de milho) enrolada num pequeno embrulho de jornal. Um conterra negro de repente ficou com a cara branca. Furioso, quis castigar o miúdo pela afronta. Insultou a mãe do pequeno agressor, depois lembrou-se que era Carnaval e riu-se.
Nesse mesmo dia o Pancho Villa, num acto de loucura, atirou uma papaia a um sujeito de balalaica branca. O homem ficou com aquela coisa pregada à roupa, uma barba amarela e viscosa que lhe descia o peito e se perdia entre a roupa e os pêlos torácicos. O tipo puxou de uma gramática incrível de insultos, ao mesmo tempo que passava a língua pelo suco do fruto. Tirou muito à pressa um lenço das calças e começou a limpar-se. O Pancho Villa, muito sério, mantinha-se vigilante com a mão direita apertada à muleta de metal. Mal limpou os olhos, o cavalheiro viu diante de si aquele miúdo com ar assustado, um pouco inclinado para a frente e em posição defensiva. Então preparou a mão peluda para a chapada, que foi recebida com um rol de muletadas. O Pancho Villa, apesar de aleijado das pernas, tinha nos braços batatas de halterofilista e uma vontade incrível de dar porrada a Luanda inteira.
O muadiê da balalaica recuou perante tão impenetrável barreira. Num grande momento de clarividência resolveu continuar o seu caminho pela rua Coronel Artur de Paiva abaixo, num coxeio de sapo com reumatismo e a trocar os às e os bês no seu impenetrável código de vulgaridades.
– Passa lá os vinte paus – disse o Pancho ao Rui, o candengue mais balado da rua. O aldrabão tentou furtar-se a pagar a aposta perdida, engendrando desculpas desconexas.
– Passa lá os vinte paus – voltou o Pancho Villa, agora com a mão de ferro na garganta do Rui. A pressão deixou na cara do menino rico as cores do arco-íris, até se tornar vermelha como os tomates da Dona Aurora, uma senhora mulata que era costureira e tratava todos os polícias por tu. Num momento de desespero o Rui meteu a mão no bolso e resgatou a nota renitente de vinte escudos.
Foi nesse incomparável dia que o Rui, em face dos acontecimentos e falta de palavra, começou a chamar-se Camaleão.

Glossário de termos angolanos

Candengue: miúdo
Balado: endinheirado
Puto: Portugal
Muadiê: tipo, gajo

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