Retrato antigo

Passa os dedos pela lombada dos livros. O pó do Tempo esvoaça, cobre-lhe as unhas, entra-lhe nos pulmões. O candeeiro da secretário aceso. Numa das paredes um nu de Picasso. Tantas palavras, meu Deus!, pensa, correndo a polpa dos dedos suavemente pelos volumes na estante de mogno. Abre um volume e, com uma lupa, começa a contá-las enquanto a noite se ocupa dos espaços da casa e a fecha sob um denso manto de escuridão.
A madrugada surpreende–o sentado à secretária a murmurar números, olhando-se num espelho sobre o tampo. Não consegue distinguir na imagem que vê a fisionomia de um deus. Vê apenas os riscos das dunas mais antigas – o rosto de um homem no fim, amando-se a si mesmo com a precaridade das areias.

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Um pensamento sobre “Retrato antigo

  1. Eduardo:
    A idade avança, a memória começa a pregar partidas e notamos em nós o que já tínhamos visto nos nossos pais e avós: as recordações do passado tornam-se mais vívidas. (Bem…tu ainda não estás nessa fase…)
    E tal como dizes vem a saudade. É verdade que a vida não foi fácil. Mas as experiências vividas numa terra como Angola, as experiências dos primeiros passos com Cristo, essas fazem parte de nós e contribuiram para o que somos hoje, como ‘gente’ e como cristãos.
    Um abraço, com carinho

    Helena

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