Dia: 24 de Fevereiro, 2008

Diário de uma amnésia (parte I)

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1

Entrei no avião com a rotina de sempre. Arrumei o saco com a máquina fotográfica no compartimento acima da cadeira. O outro, com revistas e livros, deixei-o junto aos pés. Além do Livro de Crónicas de António Melo Antunes, que levava de casa, tinha comprado no aeroporto de Vancouver Nieve en La Habana, em espanhol, do cubano Carlos Eire. Era um voo longo de 9 horas e 20 minutos e havia que estar prevenido. Lembro-me de ter conversado brevemente com o Zé Carlos Teixeira, de partes de um filme, e de um sujeito miudinho, de aspecto macambúzio, que se sentou ao meu lado. O resto esvaiu-se da minha memória.
Acordei na ambulância, em Frankfurt. Que chatice!, sou muito novo para estes dramas, pensei. Sentia uma profunda consternação e desapontamento enquanto me levavam para o serviço de urgência.
Após quatro horas de assistência, e porque me acharam incoerente nas respostas que dava, fui transferido para a clínica Städtishe Kliniken, em Höchst, Frankfurt.

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2

A minha cama estava junto à janela. Por ela entrava, fulgurante, a claridade de Fevereiro. Fixei-me no vaso do parapeito com uma flor artificial, de um vermelho esvaído, frio. Depois no céu, muito azul. Tentei refazer mentalmente os episódios das últimas 24 horas. Mas viajava num túnel de escuridão.
Entretanto foram buscar-me para testes. Quando voltei ao quarto, não sei quanto tempo depois, começava a escurecer. George, o meu companheiro de quarto, jantava na pequena mesa que partilhávamos. Conversámos brevemente.
– Tem fome? – perguntou mais tarde, soerguendo-se na cama. Eram cerca de sete horas da noite. Não tinha comido nada até aquele momento.
Ele chamou a enfermeira. Minutos depois ela trazia uma sandes, fruta e chá. Comi, a pensar no vazio.

3

Dormir mal. O George ressonava alto. A certo momento voltou-se na sua cama e deixei de o ouvir. As cortinas abertas, a noite a inundar o espaço. Pensar, reconstruir os últimos minutos, os passos, a voz, o olhar. Tudo, no entanto, tão pobre e vulnerável dentro de mim. Sem memória. Sentia-me parte da seda nocturna, a respirar mais por instinto do que convicção. Um silêncio de cidade a descansar nos seus alicerces, o céu sem vida e cor para além dos vidros.
De súbito passos no corredor, uma mão na fechadura da porta. A enfermeira deu uns passos dentro do quarto, espreitou as camas e foi-se embora.
Vontade de acender a luz e ler. Mas não queria, não devia incomodar o companheiro de quarto. Fiquei muito quieto, virado para a janela, horas a fio. A madrugada, por fim, caiu como um imenso pássaro amarelo.

4

Após o pequeno-almoço, saí do quarto. Encontrei no corredor um sujeito de meia-idade a regar as plantas do parapeito. Tinha óculos de aros redondos, cabelo escuro e curto. Estava de pijamas. Suspendeu o regador de plástico quando o abordei.
– Chamo-me Raju – disse com um sorriso. – Se não for eu a regar as plantas, ninguém o faz.
Estava há três semanas no hospital. Até ali, submetido a vários testes, nada de conclusivo. Uma exasperação.
Corria todos os dias. Fazia exercício. Certo dia, porém, os joelhos começaram a doer-lhe. Foi ao médico. Apreensivo, este mandou-o para a clínica de neurologia do hospital.
– Dou em doido aqui – disse. – Ninguém fala.
Acompanhei-o ao longo do corredor até ao último vaso. Regava com carinho, como se as plantas fossem suas. Um homem bom.
Nasceu na Índia e estava na Alemanha há muitos anos. Conversámos sentados a um canto, perto de uma janela.
Mostrou-me o quarto. O companheiro era um homem de cabelos brancos e olhar fixo. Saudei-o. Ele reparou em mim com um baço olhar de vidro, sem corresponder à saudação.
– Não regula bem da cabeça – disse Raju. – Não devia estar aqui.
Mais tarde, logo após o almoço, foi ao meu quarto. Eu distraía-me a olhar as imagens mudas da televisão. George, o companheiro de quarto, esperava a visita da família.
– Vou ver o meu cão – disse. – Não come na minha ausência.
Vestia um sobretudo preto, longo, caído abaixo dos joelhos. Levava uma carapuça na cabeça e, muito enrolado ao pescoço, um cachecol.
– Passo por aqui quando voltar de casa a ver se está tudo bem consigo.
Fechou a porta de mansinho e saiu.

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(Uma das plantas de Raju)