Mês: Março 2008

Mister Bento e a árvore

— Bom dia mister Bento. Está bom?

O velho olhava para cima através das suas lentes de míope. Reparava num homem pendurado no topo do cedro. Com gestos matemáticos a serra ia cortando os ramos, pedaços de tronco. Vinha tudo por ali abaixo a uma velocidade de luto. A árvore acumulava-se no chão, desmembrada.

Mister Bento baixou a cabeça. Estava de chinelos no meio da rua, grossas meias de lã nos pés. Muito abotoado com várias camadas de roupa sob uma camisa de flanela de xadrez, quase não se podia mexer. Estendeu-me a mão.

— Nesta idade nunca estamos bons nem maus. Estamos.

Tinha uma voz triste, apagada. Chegou assim aos oitenta e quatro anos após uma vida de muitas canseiras e sacrifícios. Agora via a árvore do vizinho morrer aos poucos. Por isso saiu de casa, arrastando os pés. A curiosidade de quem vive na monotonia.

Não se podia conversar com o ruído da serra. A mulher por trás da janela observava a rua. Dois corvos saltitavam na esquina. O céu escurecia. Apressei-me.

Mister Bento ainda ficou um instante, calado, os olhos virados para o céu onde um homem matava aos poucos uma árvore. Depois voltou para casa, sem pressa, abotoando o último botão da camisa.

Nesse momento os corvos levantaram voo e eu perdia-me entre a chuva.

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A Minha Avó Irene

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Vi que tinha perdido a infância para sempre ao retornar à casa da minha avó Irene. Encontrei-a de cabelos brancos, olhos escuros, tristes, e um xaile de lã, castanho, aquecendo-lhe o cansaço dos ombros curvos. A força do seu olhar, porém, revelava uma dimensão superior à fragilidade do seu corpo.

Eu tinha entrado na sua casa com a cerimónia de um estranho, já adulto, após uma ausência de catorze anos. Deparei com uma senhora submersa nas revoltas águas do Tempo, e um silêncio tão profundo que parecia afundá-la entre areias movediças. Caí nos seus braços como num chão outonal, em busca dos meus primeiros anos. Encontrei um oceano no fim.

Foi naquele ano funesto de 1976 que saí de África. Fui para a Europa desprovido de sonhos, respondendo ao apelo da família. Andava pela Rodésia a esbanjar a minha juventude. Esse país de jacarandás, cujo nome hoje é Zimbabué, tornou-se entretanto numa vila pobre e tribal sob o comando déspota de um velho canalha que resiste teimosamente às cinzas da efemeridade: Robert Mugabe.

Acabara de crescer quando cheguei a casa da minha avó, naquele longínquo e transcendente Março da ilha. Cada dedo era uma raiz de sede de um poeta a crescer entre o mar bravo das palavras. Caíra das minhas nuvens quiméricas e de toda uma sucessão de equívocos que me inundavam o espírito com o mesmo desencanto de uma festa interrompida a meio.

A voz da minha avó envelhecera naquela casa, as suas memórias e o seu corpo. De lá escrevia-nos para África sentada à mesa da sala de jantar. Se olhasse pela janela via a fosforescência verde das plantas, uma nesga de céu, muitas vezes pesado e lânguido e da cor amarga do chumbo. Ou então o gato, um bicho altivo e irascível que mal descobria no ar o esplendor da Primavera passava a viver no quintal perseguido pela loucura do cio. Nos momentos de repouso pendurava-se, feliz e saciado, no parapeito da janela para receber no pêlo as lambidelas crespas do sol. A avó Irene escrevia capítulos longos da sua vida com a elasticidade verbal de uma romancista. Apresentava sempre as suas emoções com exactidão diacrónica ao correr da sua prosa marinha, e um alvoroço de espuma entre vírgulas e pontos finais.

Quando podia, mandava-nos livros. Lembro-me dos seus pacotes de papel de embrulho ilustrados com a sua caligrafia perfeita, o barbante que sibilava sob o corte da tesoura, e a impregnação húmida da ilha em cada página voltada. Lia-os sob o frescor da tarde na varanda da frente do colégio dos meus pais. O «Nero», um cão de pêlo castanho e ralo, patas curtas e fortes e em cujo peito albergava a resistência de um corredor de fundo, endoidecia-me. Largava-se em corridas de touro enfurecido pelo quintal fora num frenesi obstinado, entrando de roldão pela minha leitura com um ladrar tão forte que parecia um eco sísmico a surdir da poeira das suas patas frenéticas.

O tempo passou num ápice. Vieram os anos da adolescência, idade em que só comunicamos com o nosso espelho e em que a vida parece ser uma eternidade. Todos morrem menos nós. Acolhemos no imaginário quase sempre gente inominável, equívocos sociais que passam por amizades. Na verdade, porém, só roçam ao de leve a nossa existência. Verificamos depois que fica delas apenas um traço na areia, cujos vestígios desaparecem sem rasto sob o inexorável vento do Tempo. Nessa idade de ventríloquo o Mundo parece assemelhar-se a uma coisa desabitada, a uma bola de sabão que gravita na redoma de cristal do nosso olhar. Amamos certamente a quem devemos; muitas vezes, contudo, oferecemos afecto a imagens quiméricas e breves das nossas aspirações sentimentais.

Foi nesse período que, de repente, se ouviram os brados e os tiros da descolonização. Fecharam-se as malas, os verdes anos da esperança, as portas e janelas da nossa vida angolana. Partimos, enfim, como quem se perde num túnel sem saber quando e como acaba.

Cheguei à casa da minha avó Irene no ano seguinte. Era mais uma etapa por que passava, desorientado como a gaivota que se perdeu do mar. Entrava na sua vida com a penumbra e a gravidade de um foragido. Não tinha bem clara a ideia de que os progenitores são quem delimitam as fronteiras dos nossos ciclos etários, os marcos simbólicos de uma longa estrada genética. Que são, enfim, as testemunhas de que o nosso apelido tem uma história e um percurso, e que na linha enviesada da estirpe somos a consequência de uma miríade de passos e vidas que nos antecederam.

Ali estava a minha avó sentada no cansaço da velhice, esperando quiçá pelo traquinas do neto africano que se fora embora de calções num barco e regressava já homem de avião. Tinha agora diante de si um sujeito estranho, a carregar na mala os restos de um passado que aos poucos se foi transformando num museu de emoções indecifráveis.

Hoje, neste Março de Pitt Meadows, penso no silêncio da minha avó Irene. E choro devagarinho agarrado à primeira flor do meu quintal.


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A cidade

Não atravesses a ponte que te leva à cidade:
cairás nas redes da sua implacável escuridão.
Escuta o rio do teu próprio sangue, a água
dos sonhos no alvor dos labirintos.
Restolham nos teus passos as pétalas caídas da noite
que sangra e te leva à cidade dos foragidos,
às suas monções de fumo, aos seus escravos de fato que esperam
pela lua do amanhã nas paragens dos autocarros.
A cidade é o deserto que cresce nos muros do entardecer
enquanto caminhas na chuva, o cão das horas sem nome
adiante de ti, resfolegando névoas, olvidos, latindo
contra as caixas de metal que passam com gente importante
lá dentro.
Não atravesses esses charcos.
As palavras também morrem de solidão.

As tuas roupas, ó estrangeiro!, ó guerreiro de areia!,
perdem-se nos baús
onde escondes as fotografias
dos mais inexplicáveis enigmas.
Fica aqui, contigo mesmo, serenando as marés
e os apocalipses sob este jacarandá lampejando.
Dá a volta
ao horizonte onde cresceu o teu perfil,
onde as raízes de uma pedra imponderável
clamam pelos séculos da tua idade,
bardo de pequenas coisas.
Procura pelo nome de uma tribo
entre as fendas do mundo.


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Sinais

Varre os sinais da lua
que te correm a face.
Aproxima-te. O mar chama-te deste lado
onde me deito.
Por que porta entraste nas minha palavras?
Em que exílio me confundes?
Não sou daqui, como te disse.
Fugi há muitos anos do meu nome,
minúscula erva dos montes.
Reparte comigo o pão dos antigos,
a cama de um poema longo.
E este vento, oh!, este vento
que sangra como um murmúrio
sobre a madrugada
de eucaliptos brancos.

Diário de uma amnésia (epílogo)

9

Os médicos apareceram no quarto. Olharam para mim como quem analisa um enigma. O coração acelerou-se-me. Soergui-me na cama.

– Não encontrámos nada de significativo. Precisávamos que ficasse mais uns dias de modo a provocarmos um estado de tensão que nos indicasse as causas do seu problema.

Momentos antes de eles terem chegado, a enfermeira de serviço tinha posto o primeiro saco de soro que me administravam diariamente. Lia ou cochichava até esgotá-los. Depois levantava-me para exercitar as pernas. Estava nessa modorra, os olhos pesados de uma noite mal dormida e não sabia o que responder. Queria ir-me embora. Mas a saúde é uma coisa séria e não se deve lançar sobre a mesa das probabilidades os dados do improviso.

– Não tem que responder já. Pense no assunto. Depois diga-nos alguma coisa.

No dia seguinte, quarta-feira, estava previsto regressar ao Canadá. Ficando, teria de mudar os bilhetes aéreos e sujeitar-me àquilo que a companhia de aviação pudesse ou não fazer.

– Se eu estivesse na sua situação, ia-me embora. Aqui não tem ninguém. Em casa dispõe das mesmas facilidades médicas e tem a família para o ajudar – disse George ante a minha indecisão.

Era essa clarividência que me faltava. Sair do túnel, entrar na claridade.

10

Nessa manhã tinha-me chegado a mala de Lisboa, a meu pedido. Do meu passaporte canadiano não havia rasto. Desaparecera do meu saco de mão e, após vários telefonemas (companhia aérea, aeroporto e Embaixada do Canadá), nada.

Logo que informei os médicos da minha decisão, comecei a preparar-me mentalmente para o regresso a casa.

Tomei um duche demorado – senti sobre mim a frescura da manhã, a água macia do optimismo. Barbeei-me. Vesti roupa limpa. Comecei, enfim, a sentir-me outro.

Decidi sair de tarde para uma pequena volta a pé e tirar fotografias.

Encontrei na rua um sol crespo, quase a chegar à Primavera. Respirei fundo, retendo no peito o ar da cidade.

Ao chegar à artéria principal, virei à esquerda, registando mentalmente o nome da rua de onde viera. Cerca de 20 minutos depois alcançava as margens do rio Main.

Fiquei a olhar a tranquilidade da água, o fulgor suave da luz. Uma nuvem de pombas levantou-se de repente adiante de uma criança a correr para elas. Senti uma enorme vontade de conversar com alguém, aproximar as minhas mãos ao calor de outras e deixar na sombra da tarde uma semente de júbilo.

Permaneci quieto, porém, a observar como o silêncio, de tão antigo, por vezes se confundia com as asas abertas de uma pomba a cortar com um silvo poético o azul do céu.