Diário de uma amnésia (epílogo)

9

Os médicos apareceram no quarto. Olharam para mim como quem analisa um enigma. O coração acelerou-se-me. Soergui-me na cama.

– Não encontrámos nada de significativo. Precisávamos que ficasse mais uns dias de modo a provocarmos um estado de tensão que nos indicasse as causas do seu problema.

Momentos antes de eles terem chegado, a enfermeira de serviço tinha posto o primeiro saco de soro que me administravam diariamente. Lia ou cochichava até esgotá-los. Depois levantava-me para exercitar as pernas. Estava nessa modorra, os olhos pesados de uma noite mal dormida e não sabia o que responder. Queria ir-me embora. Mas a saúde é uma coisa séria e não se deve lançar sobre a mesa das probabilidades os dados do improviso.

– Não tem que responder já. Pense no assunto. Depois diga-nos alguma coisa.

No dia seguinte, quarta-feira, estava previsto regressar ao Canadá. Ficando, teria de mudar os bilhetes aéreos e sujeitar-me àquilo que a companhia de aviação pudesse ou não fazer.

– Se eu estivesse na sua situação, ia-me embora. Aqui não tem ninguém. Em casa dispõe das mesmas facilidades médicas e tem a família para o ajudar – disse George ante a minha indecisão.

Era essa clarividência que me faltava. Sair do túnel, entrar na claridade.

10

Nessa manhã tinha-me chegado a mala de Lisboa, a meu pedido. Do meu passaporte canadiano não havia rasto. Desaparecera do meu saco de mão e, após vários telefonemas (companhia aérea, aeroporto e Embaixada do Canadá), nada.

Logo que informei os médicos da minha decisão, comecei a preparar-me mentalmente para o regresso a casa.

Tomei um duche demorado – senti sobre mim a frescura da manhã, a água macia do optimismo. Barbeei-me. Vesti roupa limpa. Comecei, enfim, a sentir-me outro.

Decidi sair de tarde para uma pequena volta a pé e tirar fotografias.

Encontrei na rua um sol crespo, quase a chegar à Primavera. Respirei fundo, retendo no peito o ar da cidade.

Ao chegar à artéria principal, virei à esquerda, registando mentalmente o nome da rua de onde viera. Cerca de 20 minutos depois alcançava as margens do rio Main.

Fiquei a olhar a tranquilidade da água, o fulgor suave da luz. Uma nuvem de pombas levantou-se de repente adiante de uma criança a correr para elas. Senti uma enorme vontade de conversar com alguém, aproximar as minhas mãos ao calor de outras e deixar na sombra da tarde uma semente de júbilo.

Permaneci quieto, porém, a observar como o silêncio, de tão antigo, por vezes se confundia com as asas abertas de uma pomba a cortar com um silvo poético o azul do céu.

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