A cidade

Não atravesses a ponte que te leva à cidade:
cairás nas redes da sua implacável escuridão.
Escuta o rio do teu próprio sangue, a água
dos sonhos no alvor dos labirintos.
Restolham nos teus passos as pétalas caídas da noite
que sangra e te leva à cidade dos foragidos,
às suas monções de fumo, aos seus escravos de fato que esperam
pela lua do amanhã nas paragens dos autocarros.
A cidade é o deserto que cresce nos muros do entardecer
enquanto caminhas na chuva, o cão das horas sem nome
adiante de ti, resfolegando névoas, olvidos, latindo
contra as caixas de metal que passam com gente importante
lá dentro.
Não atravesses esses charcos.
As palavras também morrem de solidão.

As tuas roupas, ó estrangeiro!, ó guerreiro de areia!,
perdem-se nos baús
onde escondes as fotografias
dos mais inexplicáveis enigmas.
Fica aqui, contigo mesmo, serenando as marés
e os apocalipses sob este jacarandá lampejando.
Dá a volta
ao horizonte onde cresceu o teu perfil,
onde as raízes de uma pedra imponderável
clamam pelos séculos da tua idade,
bardo de pequenas coisas.
Procura pelo nome de uma tribo
entre as fendas do mundo.


Visite também a página do autor:
http://www.eduardobpinto.com

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