A Minha Avó Irene

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Vi que tinha perdido a infância para sempre ao retornar à casa da minha avó Irene. Encontrei-a de cabelos brancos, olhos escuros, tristes, e um xaile de lã, castanho, aquecendo-lhe o cansaço dos ombros curvos. A força do seu olhar, porém, revelava uma dimensão superior à fragilidade do seu corpo.

Eu tinha entrado na sua casa com a cerimónia de um estranho, já adulto, após uma ausência de catorze anos. Deparei com uma senhora submersa nas revoltas águas do Tempo, e um silêncio tão profundo que parecia afundá-la entre areias movediças. Caí nos seus braços como num chão outonal, em busca dos meus primeiros anos. Encontrei um oceano no fim.

Foi naquele ano funesto de 1976 que saí de África. Fui para a Europa desprovido de sonhos, respondendo ao apelo da família. Andava pela Rodésia a esbanjar a minha juventude. Esse país de jacarandás, cujo nome hoje é Zimbabué, tornou-se entretanto numa vila pobre e tribal sob o comando déspota de um velho canalha que resiste teimosamente às cinzas da efemeridade: Robert Mugabe.

Acabara de crescer quando cheguei a casa da minha avó, naquele longínquo e transcendente Março da ilha. Cada dedo era uma raiz de sede de um poeta a crescer entre o mar bravo das palavras. Caíra das minhas nuvens quiméricas e de toda uma sucessão de equívocos que me inundavam o espírito com o mesmo desencanto de uma festa interrompida a meio.

A voz da minha avó envelhecera naquela casa, as suas memórias e o seu corpo. De lá escrevia-nos para África sentada à mesa da sala de jantar. Se olhasse pela janela via a fosforescência verde das plantas, uma nesga de céu, muitas vezes pesado e lânguido e da cor amarga do chumbo. Ou então o gato, um bicho altivo e irascível que mal descobria no ar o esplendor da Primavera passava a viver no quintal perseguido pela loucura do cio. Nos momentos de repouso pendurava-se, feliz e saciado, no parapeito da janela para receber no pêlo as lambidelas crespas do sol. A avó Irene escrevia capítulos longos da sua vida com a elasticidade verbal de uma romancista. Apresentava sempre as suas emoções com exactidão diacrónica ao correr da sua prosa marinha, e um alvoroço de espuma entre vírgulas e pontos finais.

Quando podia, mandava-nos livros. Lembro-me dos seus pacotes de papel de embrulho ilustrados com a sua caligrafia perfeita, o barbante que sibilava sob o corte da tesoura, e a impregnação húmida da ilha em cada página voltada. Lia-os sob o frescor da tarde na varanda da frente do colégio dos meus pais. O «Nero», um cão de pêlo castanho e ralo, patas curtas e fortes e em cujo peito albergava a resistência de um corredor de fundo, endoidecia-me. Largava-se em corridas de touro enfurecido pelo quintal fora num frenesi obstinado, entrando de roldão pela minha leitura com um ladrar tão forte que parecia um eco sísmico a surdir da poeira das suas patas frenéticas.

O tempo passou num ápice. Vieram os anos da adolescência, idade em que só comunicamos com o nosso espelho e em que a vida parece ser uma eternidade. Todos morrem menos nós. Acolhemos no imaginário quase sempre gente inominável, equívocos sociais que passam por amizades. Na verdade, porém, só roçam ao de leve a nossa existência. Verificamos depois que fica delas apenas um traço na areia, cujos vestígios desaparecem sem rasto sob o inexorável vento do Tempo. Nessa idade de ventríloquo o Mundo parece assemelhar-se a uma coisa desabitada, a uma bola de sabão que gravita na redoma de cristal do nosso olhar. Amamos certamente a quem devemos; muitas vezes, contudo, oferecemos afecto a imagens quiméricas e breves das nossas aspirações sentimentais.

Foi nesse período que, de repente, se ouviram os brados e os tiros da descolonização. Fecharam-se as malas, os verdes anos da esperança, as portas e janelas da nossa vida angolana. Partimos, enfim, como quem se perde num túnel sem saber quando e como acaba.

Cheguei à casa da minha avó Irene no ano seguinte. Era mais uma etapa por que passava, desorientado como a gaivota que se perdeu do mar. Entrava na sua vida com a penumbra e a gravidade de um foragido. Não tinha bem clara a ideia de que os progenitores são quem delimitam as fronteiras dos nossos ciclos etários, os marcos simbólicos de uma longa estrada genética. Que são, enfim, as testemunhas de que o nosso apelido tem uma história e um percurso, e que na linha enviesada da estirpe somos a consequência de uma miríade de passos e vidas que nos antecederam.

Ali estava a minha avó sentada no cansaço da velhice, esperando quiçá pelo traquinas do neto africano que se fora embora de calções num barco e regressava já homem de avião. Tinha agora diante de si um sujeito estranho, a carregar na mala os restos de um passado que aos poucos se foi transformando num museu de emoções indecifráveis.

Hoje, neste Março de Pitt Meadows, penso no silêncio da minha avó Irene. E choro devagarinho agarrado à primeira flor do meu quintal.


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4 pensamentos sobre “A Minha Avó Irene

  1. Estimado Eduardo

    As voltas que a vida dá! Voltas e reviravoltas … e fica-nos a saudade dos tempos idos e que não voltam mais. Lembrar Luanda, a casa onde a vossa família vivia, a tua mãe como professora num país que em vez de crescer, necessita mais e mais deles… e pensar nuns miudos que andavam por lá… hoje são homens, escrevem, Deus lhes deu dons raros, mas estão como alicerces “espalhados”… Só posso pensar que foi uma honra muito grande as nossas vidas terem cruzado. Tirei vantagens, pois só o ler o bocadinho da Minha Avó Irene, foi suficiente para me alegrar na capacidade que pões ao serviço dos outros.
    Que Deus te abençoe.
    Helena e José Martins

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