Mister Bento e a árvore

— Bom dia mister Bento. Está bom?

O velho olhava para cima através das suas lentes de míope. Reparava num homem pendurado no topo do cedro. Com gestos matemáticos a serra ia cortando os ramos, pedaços de tronco. Vinha tudo por ali abaixo a uma velocidade de luto. A árvore acumulava-se no chão, desmembrada.

Mister Bento baixou a cabeça. Estava de chinelos no meio da rua, grossas meias de lã nos pés. Muito abotoado com várias camadas de roupa sob uma camisa de flanela de xadrez, quase não se podia mexer. Estendeu-me a mão.

— Nesta idade nunca estamos bons nem maus. Estamos.

Tinha uma voz triste, apagada. Chegou assim aos oitenta e quatro anos após uma vida de muitas canseiras e sacrifícios. Agora via a árvore do vizinho morrer aos poucos. Por isso saiu de casa, arrastando os pés. A curiosidade de quem vive na monotonia.

Não se podia conversar com o ruído da serra. A mulher por trás da janela observava a rua. Dois corvos saltitavam na esquina. O céu escurecia. Apressei-me.

Mister Bento ainda ficou um instante, calado, os olhos virados para o céu onde um homem matava aos poucos uma árvore. Depois voltou para casa, sem pressa, abotoando o último botão da camisa.

Nesse momento os corvos levantaram voo e eu perdia-me entre a chuva.

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