Mês: Abril 2008

A Língua dos Nossos Filhos

— Então Miguel, estás bom?
— What? I don’t understand what you are saying …
— Estou a perguntar como é que estás.

O rapaz, frustrado, virou-se para os pais em busca de socorro.

A tia chegara nesse dia de Portugal. Estava de calções e com uma blusa fresca, os olhos a denunciarem o cansaço dos fusos horários.

— Então vocês não ensinaram português a esse rapaz?
— Para quê — respondeu a irmã. — O país dele é o Canadá! Vive aqui, por que é que há-de saber português?

Este não é um caso único, infelizmente. Há-os por aí em abundância.
Em Luanda, era eu ainda jovem, vendi enciclopédias. Consegui assim, por uns tempos, angariar alguns fundos para as minhas pequenas extravagâncias. Num desses serões difíceis, em que batia à porta das pessoas com uma pasta cheia de prospectos e a enfadonha e previsível retórica das técnicas de venda, acudiu à campainha um senhor muito simpático.

Na sala esperavam-nos a esposa, sentada no sofá a ler uma revista, e um menino, aí pelos cinco anos de idade, a brincar no chão com carrinhos. A senhora, fina de aspecto e aparentando ser estrangeira pelo sotaque, fechou a revista ante a minha presença.

Acabou por ser um serão agradável, com a família toda envolvida na minha pequena apresentação. Desde logo notei que o menino falava duas línguas. Quando se dirigia à mãe fazia-o em francês; com o pai, no entanto, só falava português.

A senhora, vim a saber, era parisiense. O pai de Lisboa. Tinham combinado educar o filho nos dois idiomas. O menino podia assim atravessar a ponte entre as culturas das suas origens desfrutando de dois mundos diferentes, os quais eram de facto seus.

O rapaz do primeiro caso, filho de portugueses, embora nascido no Canadá a sua língua era, segundo o meu ponto de vista, a portuguesa. Explico.

Não obstante ser o português a língua oficial em Angola, o povo angolano divide-se por múltiplos dialectos. Estes são, na realidade, as suas línguas maternas. O idioma oficial é, pois, o veículo de comunicação entre todos os angolanos. No entanto, sendo o português a língua corrente, não impede que as várias etnias reclamem, por direito cultural e idiomático, da legitimação da sua língua como própria. Mesmo que seja apenas usada num foro social restrito ou na sua vida privada.

Na situação dos emigrantes cujos pais são do mesmo país, será correcto dizer-se que a língua dos filhos, pese embora o facto de nascerem no estrangeiro, é a dos pais — no caso de a língua de origem ser diferente daquela para onde se imigra. Temos que ter em conta que uma língua não é apenas um veículo de comunicação. Traz em si toda uma dinâmica cultural que não se deve nunca menosprezar.

Temos, perante os nossos filhos (sendo também uma homenagem às gerações que nos antecedem), a obrigação moral de lhes deixar o conhecimento da nossa língua. É um valor intrínseco daquilo que somos. Além disso, é uma expressão do nosso dinamismo intelectual. Que a nossa reconhecida abrangência social não passe unicamente pelo absorvimento de outras culturas, como também pela conservação do património cultural de que somos todos portadores, no que concerne à nossa ancestralidade.

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