Mês: Fevereiro 2009

Meditação sobre um copo de água

Escrevi um texto abordando a subcultura urbana, a pobreza, e esta coisa inextricável que é a globalização. A certo momento estaquei. Estava armado em sociólogo, o que não sou. Ter uma opinião é uma coisa; avançar com teorias é outra. Cai-se sempre de bruços na retórica. Não estou para extrapolações dessas. É assim: era tudo muito complexo, asfixiante, desolador. Para engendrar estados emocionais desses, basta ligar a televisão. Não quero contribuir para obscuros e desanimadores estados de alma. Olhemos em frente.

De qualquer modo, é imperativo uma pausa no mundo actual. Vivemos uma farsa económica assustadora e que nos ultrapassa. Sofremos o descalabro de más gestões económicas, péssima política, más consciências, e de multinacionais predadoras que nos destroem o ambiente e devastam sem regra e consciência os recursos naturais do planeta. Criámos uma cultura de consumismo sem limites. Não temos líderes capazes e à altura dos desafios que enfrentamos. Somos humanos e velhacos, cínicos e egoístas. Vivemos entre as ruínas dos tempos. Temos políticos que geram países como propriedade própria. Roubam, roubam, roubam. E mandam matar quem não abdica de um estado mental lúcido. Matam também os sonhos e o futuro dos filhos dos outros.

E nós, os que usamos a Arte como forma de vida? Somos apenas as vedetas do acaso? Basta-nos apenas a pança cheia e matéria criativa?

Vi ontem dois corvos num ramo. Um esquilo passou a correr e escondeu-se entre arbustos. Eu não me sentia feliz mas registei o momento. E senti-me menos infeliz. Tinha calor nas veias e o azul dos céus nos olhos. Isso, apenas isso, pode ser um paradigma. Pelo menos no coração que poetiza a vida e contempla o sol para além das ruínas. Como olhar um deserto de luz a caminho da música. Amar. Ser romântico. Ter mãos carinhosas para um rosto e palavras doces como frutos. Ou abrir um rio no fundo da voz e soltar as águas de todos os cânticos. De todas as harmonias. Ser poeta e ser músico de outro Amanhã. Ser profeta de coisas simples e que cabem num bolso. Ser uma árvore antes das ravinas.

Vi dois corvos e um esquilo e fiquei cheio de esperança. E desatei a correr para o silêncio.

A lareira

O fogo vem das mãos dos homens. Por isso é tão devastador. Coze-nos os alimentos, molda os materiais e transforma-os, aquece-nos no Inverno. O fogo é ainda a paixão que nos cega, que nos queima por dentro, nos devasta os sentidos.

A água, porém, vem dos céus e do mais profunda da terra. A minha primeira imagem são as águas do Chilo, o rio da minha infância no Sul de Angola. Nas suas margens caiu o sangue do meu pai. Plantou altas palmeiras e os sonhos mais inverosímeis. Ali cresci um pouco, contando pedras de luz.

Mas a chuva, magistral, caindo no telhado de colmo, assustava-me o sono. O imenso cheiro da terra. Tão bom esse calor, no entanto, essa instância mais remota!

Mais tarde, nos Açores, descobri o mar da minha mãe. Era um espelho níveo que viajava dentro dos olhos e me desafiava. Comecei a amá-lo devagar, porque só se ama o que se entende. Criei então esta aliança mágica, que é lembrá-lo quando tudo parece perdido. Assim acalmo-me, abaixo-me à terra e beijo o chão.

Pensei nisto olhando a lareira. Nevava como nunca nevou aqui, e eu precisava tanto de regressar a outro tempo!

A igreja

A porta castanha, de uma madeira dura, antiga. As paredes brancas, o sol a pique, ardente. A minha voz bateu contra a porta, resvalou até ao chão. Pensei no tecto alto da igreja, nos joelhos dos fiéis amarrados ao chão. Que palavras voavam alí, que preces? Por que procuramos Deus entre paredes?
Ouvi os meus passos sobre as pedras da tarde. O sino calado. A brisa enrolava-se numa trança escura. Levantei a máquina fotográfica e captei o momento, esse menino descalço que é feito de imagens e de toda a música da água.

O Moinho

A máquina fotográfica levou-nos ao moinho. Havia uma cerca de madeira e uma cancela. Um casal saía. Havia flores ao redor, essas belas flores de Portugal.
Uma senhora idosa, de avental e voz pausada, perguntou:
– Estão à procura de quarto?
– Não, não! Estamos a tirar fotografias ao moinho. É muito bonito.
– Os quartos são baratos, não querem ver?
Como resistir a tanta simpatia? Entrámos.
Logo à entrada, escadas íngremes. Ao chegarmos ao primeiro piso, que era a cozinha, o cheiro de sopa de feijão. Um sujeito de idade, com ar grave e outonal, estava sentado numa cadeira de embalo. Correspondeu ao cumprimento com um aceno de cabeça. Era um homem triste, calado como uma pedra dos montes.
Seguimos a senhora pelos andares todos.
De uma janela vi uma pequena floresta. Chilreios.  O sol, magnânimo, banhava de luz a pequena igreja do lado direito. Apeteceu-me ficar lá, descalçar os sapatos e sentar-me defronte da janela a bebericar uns uísques até a tarde cair, macia. Ouvir Chopin, já agora, que me desperta sempre a alma para os elementos mais selvagens da serenidade. Mas o autocarro esperava, a vida.
Saímos de lá a correr. Um azul impenetrável e limpo corria todo o horizonte. Registei aquele momento como uma espécie de poema.
De coisas simples se constrói a alegria. Sobretudo quando a luz nos dá a mão e nos leva de mansinho, e a cantar,  pela memória fora.

A Ressurreição da Água de Maria Antonieta Preto

Esta menina escreve como uma deusa. Aprecio o gosto fino e depurado da sua escrita, das metáforas breves que nos caem nos olhos como pingos de orvalho. Este é o segundo livro de contos de Maria Antonieta Preto. O primeiro, Chovem Cabelos na Fotografia, foi uma revelação que a crítica acolheu com entusiasmo. Este, A Ressurreição da Água, vem confirmar o seu talento. É um livro que se lê devagar, palavra a palavra, com gozo e deslumbramento. Uma poetisa dos instantes, de uma ruralidade que nos fala de prodígios inusitados e que nos levam de roldão por momentos de leitura deliciosos. Coisa linda, este livro. Um prazer de luz para estes longos dias de Inverno.

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Correntes D’Escritas (10 anos)

Um assombro. A sua organização é de uma impecabilidade tão grande que nos assusta. Em que país estamos? Um amigo diz-me: “Imagina se Portugal funcionasse com a eficiência desta organização…”

Um prazer estar ali. A amabilidade e cortesia de Manuela Ribeiro e do seu team transcende quaisquer expectativas. Estamos perante uma estrutura séria, meticulosa e eficiente. Em qualquer parte do mundo. No topo.

Uma chuva de  cultura e afectividade, as Correntes D’Escritas. Incomparável.