Póvoa

Correntes de água enrolaram-se-me nos braços como pulseiras.

Tinha ali o mar, uma das vozes mais antigas do mundo. Não se comparava, claro, à da minha mãe. É uma voz de ondas, de trigais de oiro. De ilhas açorianas.

Mas o mar. Aproximei-me descalço. Dois homens, à minha direita, pescavam. Do lado oposto estava outro sujeito de cana em riste. Fiquei no meio, acompanhado pelo manso correr das águas.

Apetecia-me abraçar alguém, correr pela espuma, levantar os braços à luz fresca da manhã. Havia uma música que me perseguia os pés, e tu não estavas.

Caminhei de encontro a um lençol de luz. Juro que vi um anjo sentado numa pedra. Vestia uma túnica branca e os cabelos eram nuvens crepusculares. Não me viu: chorava.

Eu precisava tanto de Deus nesse momento!

***

No hotel, enchiam-se as mesas do pequeno-almoço. Entrei devagar.

Não conhecia ninguém.  Sou um homem das pedras, selvagem e apátrida.

Sentei-me a uma mesa vazia. O cheiro do café era bom. Do outro lado dos vidros passava uma gaivota, o céu muito azul por trás.

Olhei em redor: alguns rostos dos jornais. Fotografias próximas, com vozes.

O pão era importante: levantei-me e fui buscá-lo.

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3 pensamentos sobre “Póvoa

  1. A minha Póvoa,
    aquele mar
    (tantas, tantas vezes vínhamos em bando, hoje sei que éramos gaivotas, do liceu para casa pelo areal)
    Afinal de onde sou eu?
    Onde estou?
    Onde é o lá,
    o cá?
    De repente
    tanta saudade

  2. Póvoa
    (Fev. 2009)

    Ao Eduardo Bettencourt Pinto

    Do mar chegam-nos correntes de sal
    que se enrolam nos pulsos até fazer sangue. São
    correntes de navios naufragados, vozes antigas
    que o oceano devolve para conhecermos as aventuras
    em que se perderam. Anéis de sangue
    que nos prendem os dedos, os que sabem escrever
    com tintas velhas como as marés.

    Cubro-me com um pano de nevoeiro
    e mergulho os pés na espuma que as ondas
    segregam. Do outro lado do cais
    um homem solitário pesca. A cana longa
    atrai-me como se fosse um peixe. E apetece-me
    ficar até sentir a guelra presa ao anzol.

    Confessas-me que estás sozinho, apenas
    “acompanhado pelo manso correr das águas”. Estranho.
    Também estou aqui e ambos vemos o mesmo anjo
    sentado numa pedra “à luz fresca da manhã”.

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