O Moinho

A máquina fotográfica levou-nos ao moinho. Havia uma cerca de madeira e uma cancela. Um casal saía. Havia flores ao redor, essas belas flores de Portugal.
Uma senhora idosa, de avental e voz pausada, perguntou:
– Estão à procura de quarto?
– Não, não! Estamos a tirar fotografias ao moinho. É muito bonito.
– Os quartos são baratos, não querem ver?
Como resistir a tanta simpatia? Entrámos.
Logo à entrada, escadas íngremes. Ao chegarmos ao primeiro piso, que era a cozinha, o cheiro de sopa de feijão. Um sujeito de idade, com ar grave e outonal, estava sentado numa cadeira de embalo. Correspondeu ao cumprimento com um aceno de cabeça. Era um homem triste, calado como uma pedra dos montes.
Seguimos a senhora pelos andares todos.
De uma janela vi uma pequena floresta. Chilreios.  O sol, magnânimo, banhava de luz a pequena igreja do lado direito. Apeteceu-me ficar lá, descalçar os sapatos e sentar-me defronte da janela a bebericar uns uísques até a tarde cair, macia. Ouvir Chopin, já agora, que me desperta sempre a alma para os elementos mais selvagens da serenidade. Mas o autocarro esperava, a vida.
Saímos de lá a correr. Um azul impenetrável e limpo corria todo o horizonte. Registei aquele momento como uma espécie de poema.
De coisas simples se constrói a alegria. Sobretudo quando a luz nos dá a mão e nos leva de mansinho, e a cantar,  pela memória fora.

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2 pensamentos sobre “O Moinho

  1. Tão luz este moinho. Tão luz esta igreja. Tão luz janelas para a floresta. Tão luz-beleza. Tão luz a pureza nas alegrias do interior. Tão luz o oculto, pele, memória. Tão luz tudo.

  2. Dissecar este texto:

    uma cerca de madeira e uma cancela – que imagem boa de um lugar, que simplicidade. O nosso imaginário já lá está.
    essas flores de Portugal – o viajante que aprende a amar ainda mais depois do regresso
    o primeiro piso, que era a cozinha, o cheiro de sopa de feijão – imagem visual e olfactiva do lugar. Ficamos lá agarrados ao cheiro. Quem conhece o verdadeiro cheiro da sopa de feijão? É este.
    era um homem triste, calado, com uma pedra dos montes- imagem genial, brutal: comparar um homem calado a uma pedra dos montes. É certamente a melhor imagem que já encontrei nos textos literários que li em toda a minha vida. Como é possível imaginar a força do calado.
    o sol banhava de luz a pequena luz do lado direito – a atenção à luz, a luz a invadir o viajante que não se perde apenas em determinadas descrições.
    Apeteceu-me lá ficar, descalçar os sapatos – o descanso do viajante, o verdadeiro viajante cujos caminhos são sem destino. O destino é a liberdade de caminhar ao sabor dos estímulos da paisagem, dos momentos.
    Registei aquele momento como uma espécie de poema – que dizer quando um momento se transforma num poema? Só os grandes viajantes sentem esta junção.
    De coisas simples se constrói a alegria. Sobretudo quando a luz nos dá a mão e nos leva de mansinho e a cantar pela memória fora- Eis o grande viajante, isto é, o grande escritor.

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