A lareira

O fogo vem das mãos dos homens. Por isso é tão devastador. Coze-nos os alimentos, molda os materiais e transforma-os, aquece-nos no Inverno. O fogo é ainda a paixão que nos cega, que nos queima por dentro, nos devasta os sentidos.

A água, porém, vem dos céus e do mais profunda da terra. A minha primeira imagem são as águas do Chilo, o rio da minha infância no Sul de Angola. Nas suas margens caiu o sangue do meu pai. Plantou altas palmeiras e os sonhos mais inverosímeis. Ali cresci um pouco, contando pedras de luz.

Mas a chuva, magistral, caindo no telhado de colmo, assustava-me o sono. O imenso cheiro da terra. Tão bom esse calor, no entanto, essa instância mais remota!

Mais tarde, nos Açores, descobri o mar da minha mãe. Era um espelho níveo que viajava dentro dos olhos e me desafiava. Comecei a amá-lo devagar, porque só se ama o que se entende. Criei então esta aliança mágica, que é lembrá-lo quando tudo parece perdido. Assim acalmo-me, abaixo-me à terra e beijo o chão.

Pensei nisto olhando a lareira. Nevava como nunca nevou aqui, e eu precisava tanto de regressar a outro tempo!

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