Meditação sobre um copo de água

Escrevi um texto abordando a subcultura urbana, a pobreza, e esta coisa inextricável que é a globalização. A certo momento estaquei. Estava armado em sociólogo, o que não sou. Ter uma opinião é uma coisa; avançar com teorias é outra. Cai-se sempre de bruços na retórica. Não estou para extrapolações dessas. É assim: era tudo muito complexo, asfixiante, desolador. Para engendrar estados emocionais desses, basta ligar a televisão. Não quero contribuir para obscuros e desanimadores estados de alma. Olhemos em frente.

De qualquer modo, é imperativo uma pausa no mundo actual. Vivemos uma farsa económica assustadora e que nos ultrapassa. Sofremos o descalabro de más gestões económicas, péssima política, más consciências, e de multinacionais predadoras que nos destroem o ambiente e devastam sem regra e consciência os recursos naturais do planeta. Criámos uma cultura de consumismo sem limites. Não temos líderes capazes e à altura dos desafios que enfrentamos. Somos humanos e velhacos, cínicos e egoístas. Vivemos entre as ruínas dos tempos. Temos políticos que geram países como propriedade própria. Roubam, roubam, roubam. E mandam matar quem não abdica de um estado mental lúcido. Matam também os sonhos e o futuro dos filhos dos outros.

E nós, os que usamos a Arte como forma de vida? Somos apenas as vedetas do acaso? Basta-nos apenas a pança cheia e matéria criativa?

Vi ontem dois corvos num ramo. Um esquilo passou a correr e escondeu-se entre arbustos. Eu não me sentia feliz mas registei o momento. E senti-me menos infeliz. Tinha calor nas veias e o azul dos céus nos olhos. Isso, apenas isso, pode ser um paradigma. Pelo menos no coração que poetiza a vida e contempla o sol para além das ruínas. Como olhar um deserto de luz a caminho da música. Amar. Ser romântico. Ter mãos carinhosas para um rosto e palavras doces como frutos. Ou abrir um rio no fundo da voz e soltar as águas de todos os cânticos. De todas as harmonias. Ser poeta e ser músico de outro Amanhã. Ser profeta de coisas simples e que cabem num bolso. Ser uma árvore antes das ravinas.

Vi dois corvos e um esquilo e fiquei cheio de esperança. E desatei a correr para o silêncio.

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