Mês: Março 2009

Domingo sem luz

Domingo preguiçoso. Pego num livro de Joyce Carol Oates. Magnífica.

Vim para aqui antes da madrugada. Durmo pouco e mal. Quantas horas a ler? Quantos sonhos? Agora os olhos, cansados, ardem-me. Vou à janela.

Amanhece devagar. Os arbustos que fecham o meu escritório e me dão uma espécie de intimidade, estão húmidos. Que frustração. Vancouver é uma cidade lindíssima mas este clima pulveriza qualquer optimismo.

Gosto do silêncio que soa a música. A paz. No qual avulta a ressonância de um lume que crepita e não se vê. Estar só e bem, estremecendo entre palavras.

«Sou um homem que perdeu tudo/mas criou a realidade» – de um verso de Lêdo Ivo, Canto Grande.

Lembrei-me do grande poeta neste momento. Um grande senhor das Letras, poeta enormíssimo. E no entanto não flutua no seu ego, coisa que me repugna em certos autores. A ideia do vedetismo é  absolutamente ridícula. É o testemunho de um carácter inseguro, de flacidez mental. Desprezível.

Lêdo Ivo é o contrário de tudo isso. Um homem e um senhor, com a sua gargalhada franca, de menino. Lembra-me um amigo, um dos maiores poetas portugueses de sempre: Emanuel Félix. É triste já não o termos connosco, ouvir as suas histórias, o cântico luminoso de novos poemas.

Domingo e livros. O silêncio que flui entre o zumbido do computador. O gotejar de coisas imperceptíveis aos olhos, esplêndidas.

«A tua voz cintila, plumosa». Apareceu-me esta frase para o livro de poesia que escrevo, de repente.

Vou-me embora. Sou caótico e preguiçoso. Além disso esperam-me coisas de homem: fazer a barba, por exemplo.

O que me leva sempre a esta implacável pergunta:

– Quem é esse tipo diante de ti, a cara espumosa, cinzas no olhar?

Não sei.

Desde a minha juventude que não me vejo. Perdi-me nas fulminantes florestas do Tempo. Só nos rios do Sul, em África, consigo ver, reflectida na água, a imagem do meu rosto.

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Os amores impossíveis de Diana Athill

É inglesa, olhos claros, cabelos brancos penteados para trás. Tem 91 anos. Durante grande parte da sua vida foi editora de escritores de prestígio internacional como Norman Mailer, John Updike, Simone de Beauvoir, V.S. Naipaul, Mordecai Richler, etc. A lista é grande e impressionante.

A sua longevidade não atenuou a sua enorme beleza, a pose fina. Aquele ar que certas mulheres detêm e nos deixam à mercê da sua órbita feminina.

Escreveu dois livros de ficção e seis autobiografias. A mais recente intitula-se Somewhere Towards de End, em 2008.

É um livro no qual rasga as suas vestes mais íntimas até à pele. Não se coíbe perante detalhes que usualmente não transcendem os limites de quatro paredes. Escreve, porém, sobre quem amou com a elegância e a minuciosidade de quem viveu cativa da paixão. Amar por vezes contém uma magnitude subversiva. Certamente por isso é que DA não cai em ressaibos frívolos.

Que se leia este livro numa reflexão de espelhos e sem a entropia terrificante e cor-de-rosa da coscuvilhice.

diana-athill

As mulheres do sul

As pobres mulheres do sul:
tão perdidas nos seus passos, velhas,
o azul frio da neblina caído
nos ombros,
o trigo crepuscular abrindo-lhes sulcos
no rosto.

in No Deserto Inesgotável do Teu Nome, em preparação.

Escureço

Escureço contigo
sobre os instantes,
entre a palha do entardecer.
Os campos ardem, os pássaros
atravessam os teus olhos até ao mar.
Em que deserto me encontras,
afogado em ti?

in No Deserto Inesgotável do Teu Nome, em preparação.

lago

Teolinda Gersão

Desde o seu primeiro romance, O Silêncio, que presto especial atenção aos livros de Teolinda Gersão. Lembro-me que essas primeiras impressões de leitura me remeteram para um sortilégio invulgar nunca experimentado num livro de ficção: um novo e atraente gosto fílmico de relatar, quase sussurrante. Inspirava-me tanta serenidade e beleza que me parecia ter ante os olhos não as páginas de um livro mas as mais fulgurantes imagens do mundo.

Aprendi que os seus livros se devem ler devagar, como quem ouve música. Sendo eles os lugares da casa e dos interiores humanos mais íntimos, são também um pouco a partitura e a dicotomia entre luz e sombra, de personagens que vão e vêm e nos visitam a intimidade e os sentimentos, como se estivessem ao nosso lado, tácteis e visíveis.

A Mulher que Prendeu a Chuva, o seu mais recente livro de contos (contemplado com o Prémio Máxima de Literatura 2008), devolve-nos esse fulgor lapidar. Leva-nos, aos seus leitores e admiradores, a receber novamente a energia solar das suas palavras. Vamos (re)descobrindo o profuso imaginário com que nos habituou, entre encantamento e lágrima, tumulto e serenidade.  São contos de lugares e personagens sem fronteiras, elementos comuns de geografias plausíveis; ou de outras paragens cuja referência podemos apenas reconhecer no âmbito da nossa capacidade para identificar o onírico e o fantástico, guiando-nos pelo fulgor do instinto e pela adquirida reverberação de novos espaços imagéticos e sensoriais.

Altamente recomendável.

mulherchuva

Homem a fugir do poema

Sou homem e uma pedra a arder. Não me levem para a cidade.

Pensava nisto enquanto a noite caía, folha a folha, no vidro do hotel. À direita, o mar era uma superfície quieta. Na piscina, em baixo, um sujeito fumava. Abri a porta e meti-me no balcão.

Lembrei-me do Inverno aqui, das suas mãos frias e penetrantes. Ali o sol. Estava sozinho naquela varanda que descobri a caminho do elevador.

Queria ver o crepúsculo. Quero sempre ver. Fiquei alguns minutos, adâmico no meu entusiasmo. Um vermelho intenso desatava-se por entre as nuvens. De repente apareceu a gaivota, em chamas. Fui com ela até contornar o prédio,  onde se perdeu.

Vou-me embora muitas vezes à procura desses momentos. São os meus templos. Sempre que posso descalço-me, sangro pelos caminhos. Até que, num instante de luz, descubro a saída dos meus labirintos.

Não é ser romântico, que veleidade. Amo a dor do belo, aquilo que me transcende e está fora do meu alcance. Amo a considerável força do mistério, a torrente de energia que pulveriza o amor e o deixa assim, frágil, a levitar no universo.

Não sou daqui, parti há muitos anos. Vivo um tempo emprestado. Tanta areia na minha voz, tanto deserto.

Fui ali ver o crepúsculo. Quando saí já a noite, dura, engolia a paisagem.

Na sala de jantar ninguém descobriu em mim o viajante que ardia.

Introspecção

Componho a sombra, os seus fragmentos.
Uma guitarra fere as veias das palavras.
Que arte esta, a do silêncio?
Um lobo uiva rente à fala
e neva no olhar do poema.
Atravesso o inverno, árvores nuas,
vales desérticos e brancos,
sob nuvens escuras onde matilhas de tédio
perseguem, verozes,  a claridade.
Que território este, sinuoso e abrupto,
onde o fogo e a água formam um caudal?
Vivo no gume da lâmina
pólen e caos.
Registo a ressonância do pulso,
a forma de coisas húmidas,
páginas onde oiço o correr do sangue,
a palpitação da terra.
Observo o mundo
enquanto um cavalo galopa
entre mistério e ausência.