O homem dos sacos

O homem, um sujeito de idade e com um capacete de bicicleta na cabeça, entrou no Banco. Levava um saco de compras em cada mão. Reparou em redor e saiu.

— Desculpe. Pode dar-me uma boleia até Port Coquitlam?

Não reconheci a voz que me interpelava. Eu estava no parque de estacionamento com a porta do meu carro aberta a procurar um cartão no porta-luvas.

Virei-me. Era ele.

Se fosse para aqueles lados levava-o. É uma dessas obrigações sociais onde nos revemos todos.

Deixou-me, no entanto, apreensivo.

Que destino tem um homem que caminha com uma nuvem de chuva nos ombros e um olhar esgazeado?

Fui ao café.

Lá andava ele de um lado para o outro. Abordava as pessoas, sempre a andar muito depressa. As gaivotas do costume voavam de candeeiro para candeeiro.

Quando saí, dei com um tipo de meia-idade com ar muito espantado. Tinha encontrado os sacos do homem do capacete de bicicleta abandonados no passeio. Ao lado, uma garrafa de cerveja. Não sabia o que fazer.

— Deixe-os onde os encontrou — disse-lhe. — Ele há-de voltar.

Para um doente mental, todos os lugares são uma espécie de universo próprio. Ou uma casa cheia de labirintos intermináveis. Uma barafunda. A verdade é que não temos capacidade para os entender, e para atravessar as pontes mentais e encontrarmo-nos a meio caminho. Os nossos espelhos íntimos só reflectem o abismo entre nós.

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