Homem a fugir do poema

Sou homem e uma pedra a arder. Não me levem para a cidade.

Pensava nisto enquanto a noite caía, folha a folha, no vidro do hotel. À direita, o mar era uma superfície quieta. Na piscina, em baixo, um sujeito fumava. Abri a porta e meti-me no balcão.

Lembrei-me do Inverno aqui, das suas mãos frias e penetrantes. Ali o sol. Estava sozinho naquela varanda que descobri a caminho do elevador.

Queria ver o crepúsculo. Quero sempre ver. Fiquei alguns minutos, adâmico no meu entusiasmo. Um vermelho intenso desatava-se por entre as nuvens. De repente apareceu a gaivota, em chamas. Fui com ela até contornar o prédio,  onde se perdeu.

Vou-me embora muitas vezes à procura desses momentos. São os meus templos. Sempre que posso descalço-me, sangro pelos caminhos. Até que, num instante de luz, descubro a saída dos meus labirintos.

Não é ser romântico, que veleidade. Amo a dor do belo, aquilo que me transcende e está fora do meu alcance. Amo a considerável força do mistério, a torrente de energia que pulveriza o amor e o deixa assim, frágil, a levitar no universo.

Não sou daqui, parti há muitos anos. Vivo um tempo emprestado. Tanta areia na minha voz, tanto deserto.

Fui ali ver o crepúsculo. Quando saí já a noite, dura, engolia a paisagem.

Na sala de jantar ninguém descobriu em mim o viajante que ardia.

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