Domingo sem luz

Domingo preguiçoso. Pego num livro de Joyce Carol Oates. Magnífica.

Vim para aqui antes da madrugada. Durmo pouco e mal. Quantas horas a ler? Quantos sonhos? Agora os olhos, cansados, ardem-me. Vou à janela.

Amanhece devagar. Os arbustos que fecham o meu escritório e me dão uma espécie de intimidade, estão húmidos. Que frustração. Vancouver é uma cidade lindíssima mas este clima pulveriza qualquer optimismo.

Gosto do silêncio que soa a música. A paz. No qual avulta a ressonância de um lume que crepita e não se vê. Estar só e bem, estremecendo entre palavras.

«Sou um homem que perdeu tudo/mas criou a realidade» – de um verso de Lêdo Ivo, Canto Grande.

Lembrei-me do grande poeta neste momento. Um grande senhor das Letras, poeta enormíssimo. E no entanto não flutua no seu ego, coisa que me repugna em certos autores. A ideia do vedetismo é  absolutamente ridícula. É o testemunho de um carácter inseguro, de flacidez mental. Desprezível.

Lêdo Ivo é o contrário de tudo isso. Um homem e um senhor, com a sua gargalhada franca, de menino. Lembra-me um amigo, um dos maiores poetas portugueses de sempre: Emanuel Félix. É triste já não o termos connosco, ouvir as suas histórias, o cântico luminoso de novos poemas.

Domingo e livros. O silêncio que flui entre o zumbido do computador. O gotejar de coisas imperceptíveis aos olhos, esplêndidas.

«A tua voz cintila, plumosa». Apareceu-me esta frase para o livro de poesia que escrevo, de repente.

Vou-me embora. Sou caótico e preguiçoso. Além disso esperam-me coisas de homem: fazer a barba, por exemplo.

O que me leva sempre a esta implacável pergunta:

– Quem é esse tipo diante de ti, a cara espumosa, cinzas no olhar?

Não sei.

Desde a minha juventude que não me vejo. Perdi-me nas fulminantes florestas do Tempo. Só nos rios do Sul, em África, consigo ver, reflectida na água, a imagem do meu rosto.

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Um pensamento sobre “Domingo sem luz

  1. Tão maravilhoso o Lêdo Ivo – o homem que está no sol. E o Eduardo o homem que já esteve no sol. Será que as suas palavras brilhantes existem, como existem também, pela dor da ausência do sol? Como existiriam as suas palavras se voltasse ao sol? Desconfio do que aconteceria… o sol enlouqueceria ainda mais os livros de fogo…

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