Mês: Abril 2009

Escrever

Agarro-me todos os dias às palavras como a raízes. Sem elas, a solidão profunda. O presídio emocional. Entre mim e o acto da escrita estabelece-se uma relação mais fisiológica do que intelectual. As palavras actuam como extensão das mãos, uma voz que cresce de entre os dedos para o papel ou ecrã do computador.

Posso atravessar uma cidade sem falar com ninguém, correr o deserto, afundar os pés no profundo mar da noite; comer sozinho, andar perdido nos labirintos do metro; sentar-me numa esplanada horas a fio a observar o correr do mundo. Não me canso: o silêncio foi a minha primeira infância. Estou em território familiar.

Desenhar uma palavra, no entanto, acorre-me como uma inextricável ressonância. Fujo em todas as direcções possíveis da imaginação e da sensibilidade. Estou no cais, sentado na tarde mais antiga. As gaivotas partem, a luz, todos os barcos. Estou, enfim, saciando-me com as primeiras águas do deslumbramento.

Não sou poeta nem escritor. O meu ofício é o vento. Conheço terras, estações, algumas pessoas. Amo tanto e tão pouco. O amor, é verdade, enobrece o ser. Mas as palavras que o revelam libertam a claridade. O coração.

Por isso escrevo. Nada mais.

A magnólia

Está do lado de trás da casa. Fui vê-la ontem. Parecia uma mulher antiga, braços ao alto, vestido pobre, e a intraduzível melancolia dos cães abandonados. Apeteceu-me abraçar a velha e frágil amiga.

Durante o Verão cuido dela com a sede imensa das minhas mãos: toco nela devagarinho, lentamente, até sentir na pele uma vibração divina. Aparo-lhe as unhas doentes, a irreverência dos seus cabelos. Em dias de chuva, as lágrimas que resvalam dos seus olhos são espelhos minúsculos, vozes húmidas dos céus.

Ontem foi um dia amargo, confesso. Cheguei a casa com a cidade toda dentro de mim, com os seus pesadelos e a sua febre egocêntrica, os seus túneis e labirintos. Em dias assim nem as pedras cantam.

Então a magnólia. A busca de paz. Comunicar com a terra, as ravinas, o prodígio dos ventos. Ser água e areia. Murmúrio de sombra. Filho das árvores.

O amor

Abre os braços e acolhe os rios do meu corpo.
Ondula comigo entre as tempestades brancas
dos lençóis,
atravessando a noite, o dia,
o fulgor de irremediáveis marés.
O amor é uma viagem sem bússola.
Perde-te comigo no horizonte desse mar.

in O Inverno de Sofia, romance.

Aurelino Costa

Quando se aproximou do microfone, a luz do tecto caiu sobre ele como um raio solar. Sob o foco, a claridade não o despiu: pareceu levantá-lo do chão numa espécie de nuvem. A sala, cheia, guardou silêncio.

Instantes depois, não era apenas a sua poesia que era um assombro. Levava-nos numa viagem sem fronteiras e habitáveis iluminações. Admirei desde logo a sua excelente voz, o seu dizer extraordinário.

A verdade é que Aurelino Costa faz a poesia cantar. A imagem dessa noite, adiantada no relógio, ficou-me gravada: um homem resplandecendo diante das suas palavras, cumprindo o fulgor do poema com voz de trovador.

«Na Voz do Regresso», AC diz a poesia de José Régio, um CD comemorativo do centenário do seu nascimento, edição da C.M. da Póvoa de Varzim. Tem a colaboração dos músicos António Victorino D’Almeida, João Moura, Luís Veloso e Abel Gonçalves.

Um enorme momento de som e palavras. Inolvidável.

aurelino_costacd

Enunciação

A chama permeável sobre a terra. Repouso a mão no teu ombro – vês o sol? Caminha na erva muito de leve e leva consigo uma criança. Vamos segui-los. Procuram o Verão.

Quem canta na sombra de um jacarandá? Será ele? Por que envelhece aquela mulher por trás da janela a contar os dias? Por que somos tristes entre duas pedras, o passado e o presente?

Perguntas: E a minha cidade? E as minhas ruas de chuva e vento e neve em Abril?

São pormenores.

Sinto o calor do teu ombro na minha mão. Há entre nós uma intimidade genesíaca.

Caminhemos.

Para trás ficam as ruínas de Alebag. Sacode o pó das sandálias e não leves nos olhos as últimas lágrimas. Em cada esquina do mundo há um barco que nos leva até outra cidade. O sonho é mais poderoso que as tempestades.

Vamos.

O sol não espera e ainda agora o teu nome nasceu dentro de mim.