A magnólia

Está do lado de trás da casa. Fui vê-la ontem. Parecia uma mulher antiga, braços ao alto, vestido pobre, e a intraduzível melancolia dos cães abandonados. Apeteceu-me abraçar a velha e frágil amiga.

Durante o Verão cuido dela com a sede imensa das minhas mãos: toco nela devagarinho, lentamente, até sentir na pele uma vibração divina. Aparo-lhe as unhas doentes, a irreverência dos seus cabelos. Em dias de chuva, as lágrimas que resvalam dos seus olhos são espelhos minúsculos, vozes húmidas dos céus.

Ontem foi um dia amargo, confesso. Cheguei a casa com a cidade toda dentro de mim, com os seus pesadelos e a sua febre egocêntrica, os seus túneis e labirintos. Em dias assim nem as pedras cantam.

Então a magnólia. A busca de paz. Comunicar com a terra, as ravinas, o prodígio dos ventos. Ser água e areia. Murmúrio de sombra. Filho das árvores.

Anúncios

3 pensamentos sobre “A magnólia

  1. Depois das suas mãos lentas sobre ela, depois da vontade de abraçá-la, resvalam dos meus olhos vozes húmidas do interior, ou talvez do céu, e sou sempre cada vez mais terra…

  2. Já comecei a escrevervárias mensagens/resposta aos textos lidos;mas alguma coisa me afasta do computador e acabo por perder o escrito e a inicial inspiração.
    Agora proponho-me dizer o que me vem às pontas dos dedos. Ler o Eduardo é ter a certeza de que ainda há quem viva os momentos mais doces como os mais amargos que a vida nos dá como quem respira poesia. Será importante perceber o porquê da magnólia e do su perfume? Quem é que toma conta de quem? A mim parece que a voz do Eduardo é como um velho cântico em gregoriano que chega até aos meus ouvidos acordando memórias de tempos em que esses cânticos faziam parte integrante dos meus dias de menina em colégio interno. é esse sabor antigo que um jovem consegue trazer ao meu agora, como se lhe fosse dado o poder de recriar o tempo vendo-o fugir-lhe na contemplação da velha magnólia. E só o nomear da velha árvore e as cores esbatidas e doces enchem os meus olhos e transportam a minha alma a um mundo que já foi meu.
    Obrigada, Eduardo, os teus textos devolvem-me a vida e o sonho de poder , ainda, viver. Viver num mundo em que a vida é encerrada em celas sem grades à vista…
    Fernanda Angius

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s