Escrever

Agarro-me todos os dias às palavras como a raízes. Sem elas, a solidão profunda. O presídio emocional. Entre mim e o acto da escrita estabelece-se uma relação mais fisiológica do que intelectual. As palavras actuam como extensão das mãos, uma voz que cresce de entre os dedos para o papel ou ecrã do computador.

Posso atravessar uma cidade sem falar com ninguém, correr o deserto, afundar os pés no profundo mar da noite; comer sozinho, andar perdido nos labirintos do metro; sentar-me numa esplanada horas a fio a observar o correr do mundo. Não me canso: o silêncio foi a minha primeira infância. Estou em território familiar.

Desenhar uma palavra, no entanto, acorre-me como uma inextricável ressonância. Fujo em todas as direcções possíveis da imaginação e da sensibilidade. Estou no cais, sentado na tarde mais antiga. As gaivotas partem, a luz, todos os barcos. Estou, enfim, saciando-me com as primeiras águas do deslumbramento.

Não sou poeta nem escritor. O meu ofício é o vento. Conheço terras, estações, algumas pessoas. Amo tanto e tão pouco. O amor, é verdade, enobrece o ser. Mas as palavras que o revelam libertam a claridade. O coração.

Por isso escrevo. Nada mais.

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