Semana do ciclista

Parei a bicicleta para beber água. Foi então que notei uma sombra de ave correr o chão, aos ziguezagues, adiante de mim. Era um corvo. Tentava apanhar uma borboleta. Tenho sempre dificuldade em presenciar cenas assim. Desvio a cara quando mostram na televisão um animal predador atacar a vítima. Compreendo que é a lei da Natureza mas não gosto. Sinto uma imensa pena dos animais que não se podem defender. Esta tarde, porém, o corvo não levou a melhor: a borboleta desapareceu por entre uns arbustos, mesmo à minha direita.

Vinha a pedalar há quinze minutos. (Sempre que posso, vou de bicicleta para o serviço. São pouco mais de vinte quilómetros – ida e volta –, num carreiro próprio ao lado da auto-estrada. Depois atravesso a ponte, os semáforos, e meto-me um pouco no trânsito. Ao princípio custou. Agora as pernas já estão habituadas. Querem mais). Gosto particularmente daquele troço de estrada. Por isso parei lá. O cheiro dos arbustos faz-me lembrar a Gabela, minha terra, no recôndito do Sul angolano. Os cheiros e a música são dois elementos muito fortes na invocação de memórias.

Quando disponho de tempo, levo um livro (leio neste momento Paradise de Toni Morrison), a máquina fotográfica, e paro no café. Hoje foi a correr.

Por sinal, esta foi a Semana do Ciclista. Pretende-se que, com esta medida, se diminua um pouco a poluição. Mas a ignorância continua.

Há anos fui falar com o ex-presidente da Câmara onde vivo. Pedi-lhe que passasse uma lei, ou o que fosse necessário, para obrigar os motoristas a desligarem o motor enquanto esperam que o comboio passe. Quando são muito longos, podem levar até quinze minutos. A fila automóvel é grande, entre cinquenta a sessenta veículos a expelirem dióxido de carbono. Escutou-me até ao fim. Depois disse que não dispunha de meios para policiar os automobilistas. Saí de lá furioso e com uma enorme frustração. O certo é que até hoje continua tudo na mesma. Há uma grande irresponsabilidade cívica por parte dos cidadãos e dos políticos.

Não ando de bicicleta para salvar o mundo mas a minha consciência. Além disso gosto, sempre gostei, de transportes de duas rodas. Posso parar nas florestas da memória, escutar o Tempo, e absorver devagar os cheiros que povoam o Verão. Posso, enfim, colher o silêncio nas mãos até que ele voe como uma borboleta de luz. Andar de bicicleta é como um registo de vida que mergulha no passado, visando o futuro. Se a História se repete ainda falta esta, a dos ciclistas, a dos piqueniques nos campos, a do sol e dos rios, a da voz das crianças ao redor das primeiras águas. Cristalinas, quero dizer.

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3 pensamentos sobre “Semana do ciclista

  1. Tantas vezes questiono a existência de Deus por causa da cadeia alimentar, como é possível que uma borboleta linda,frágil, seja atacada – essa maravilha que voa, feliz, dando-nos só deslumbramento?

    Sobre as cidades repletas de trânsito, sobre a destruição da diversidade natural….cansada, cansada de tanta ignorância, cansada de tanta falta de lucidez, cansada de políticos, cansada dos poderosos das gasolineiras. Mais nada há dizer,Eduardo.Mas sejamos uma resposta diariamente, sejamos bicicletas, como a sua, omo a minha, oiçamos as bicicletas, oiçamos as árvores, sejamos uma mão estendida diariamente para receber a água, geri-la,
    guardá-la como os antigos guardavam os alimentos nos celeiros para as próximas estações, para que nunca nada lhes faltasse…

  2. Que maravilha esse gesto de parar a bicicleta para beber água, esse gesto de encostar a bicicleta para beber água.

    Quão vergonhoso,para os políticos e para a maior para dos cidadãos, não ter bicicleta para parar e beber água.

  3. ” Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu nâo sei o nome, cores de Almodovar, cores de Frida Kahlo, cores, passeio pelo escuro, presto muita anteção no que o meu irmão ouve(…)

    Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone e vendo doer a fome dos meninos que têm fome (…)

    Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela (…)

    Eu ando pelo mundo (…)
    de um lado eu gosto de opostos (….)

    Eu ando pelo mundo (…) minha alegria, meu cansaço (…)”
    Adriana Calcanhoto

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