Mês: Junho 2009

O nome triste das coisas

Mister Bento não é um homem velho: ele é o tempo. Está sentado num degrau, à entrada da porta. Ao seu lado, deitado, «Olive», o gato. É um belo felino, de um cinzento-claro aveludado e brilhantes olhos de esmeralda.

A manhã de Junho, clara e doirada, passa devagar. Mister Bento tem os dedos entrelaçados e os braços, que já ergueram pedras e areia, repousam nas pernas. É um guerreiro cansado.

O gato corre ao meu encontro e enrosca-se nas minhas pernas.

– É um tolo – diz Mister Bento.

Não é recriminação mas ternura sem jeito. Os seus olhos, míopes, transmitem um reflexo estranho. «Estou quase cego», disse-me um dia. «Vejo as coisas cheias de nuvens».

– Então, temos figos este ano? –  pergunto.

Adoro figos. Lembro-me sempre das figueiras dos meus tios Veneranda e Guilherme, em Ponta Delgada. Há sempre um Verão intenso nessa memória, melros, lagartos preguiçosos nos escuros muros de magma. Éramos – eu e os meus irmãos – meninos africanos com o mar dos Açores ao fundo da rua.

– A figueira morreu –  diz Mister Bento piscando os olhos. – O Inverno matou-a.

Há no seu tom uma resignação triste, sábia.

Fico pesaroso. Era uma árvore lindíssima. Quando olhava para cima, por entre as folhas e os ramos, brilhava o azul do céu. Lembro-me de, certa vez, ouvir um pica-pau matraquear num candeeiro da rua enquanto colhia um fruto.

Toco no tronco seco – parece-me as costas magras de um velho. O sol é duro, navega entre os meus dedos.

Mister Bento está calado. «Olive», o gato, persegue uma borboleta branca, minúscula, entre a relva.

Meditação de sábado

Há dias em que as palavras me cansam. Sinto-as nos bolsos como pedras, nas unhas como aves predadoras. Farto-me delas como dos presunçosos e aborrecidos.

Não as amo, não as venero. Como as mãos, estão aqui sobre os joelhos. Fazem parte deste corpo. Não penso nelas: são a voz dos meus dedos. Mas cansam-me, invisíveis na sua nomenclatura simbólica.

Prefiro o mar, esse que não tenho, tropical, morno, e água de coco na boca. Prefiro a companhia de uma mulher. Prefiro uma mota, uma máquina fotográfica e um papagaio de papel a subir numa rua de Luanda. Prefiro um uísque num pátio mexicano, um merengue, um samba ao cair da tarde. Prefiro dançar descalço na areia e sob palmeiras. Prefiro viver numa jangada nas correntes doces de um rio, esquecer-me, esquecer, aprender tudo de novo, e com arte: ser uma criança a correr no coração de um velho.

“Kunuar”, de Luísa Coelho

Não sei até que ponto Luanda é uma cidade de prodígios. Saí de lá há muitos anos e a realidade social e física da capital angolana são diferentes. Certamente, porém, sê-lo-á pelo engenho das suas gentes. Os desafios da vida presente, herdados de uma prolongada e tortuosa guerra civil, corroboram essa perspectiva.

Apesar das contrariedades, o angolano é festivo, ri-se com facilidade e encontra no humor o elixir que o ajuda a colmatar a falta de dinheiro, a fome, a doença, e todos os malefícios da desigualdade social. Apesar dos avanços (a vários níveis) que Angola tem experimentado com o fim da guerra, o país tropeça ainda nos vícios engendrados pelo caos do período pós-colonial,  permitindo que se instalassem no seu seio com raízes profundas.

Quem vem de fora observa com mais facilidade o estado das coisas. É o caso de Luísa Coelho, que nasceu em Angola e regressou ao país após 38 anos de ausência. Doutorada em Literatura Portuguesa – Modernismo – pela Universidade de Utrecht na Holanda, é neste momento Professora na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Já publicou vários livros de ficção. Kunuar (Edições Contra Margem), o seu livro mais recente, engloba composições híbridas, desde a prosa (curta) poética ao poema.

Logo a começar pela capa ficamos perante a força imagética da fotografia (de Solange Escosteguy Cardoso, artista plástica brasileira – pintora, desenhista e escultora): uma mãe angolana, sentada naquilo que parece ser um banco, o braço apoiado na perna direita, a mão aberta, e na qual repousa o queixo. A sua expressão é de alheamento, quiçá de enfado. Entre as pernas tem o filho, descalço, amamentando-se com avidez no seu peito. Ao lado, semi-encoberto, um saco – talvez de arroz, onde se adivinham caracteres chineses. Uma vendedora da praça, dessas que inundam os grandes espaços da capital, expostas à inclemência solar, ao calor tórrido e húmido, ao pó.

Luanda, sobrepovoada, é um universo único. Logo pela manhã, um maremoto de gente atira-se para a rua. O olhar observador voa então sobre essas vidas que partem das esteiras, apressadas, ao ritmo de um quotidiano bamboleante, numa gingação natural, os cordões de missangas dançando com a luz. Falo das quitandeiras, as quindas à cabeça, os filhos pela mão. A poesia de Luísa Coelho, a que brota deste livro, atravessa toda essa simbologia da infância, agora, porém, carregada de outras ressonâncias: “Há dias assim/em que pela beira da estrada empoeirada/caminham em fila/enormes cabeças enfaixadas de lenha/cabeças plastificadas de água/azul/amarela/encarnada,/corpos de mulheres embrulhados em cores/sem rostos/sem neurastenias sem depressões/sem histerias nem prostrações./Esses dias assim, são todos os dias.”

Todo esse mundo que lhe é familiar faz evocar-lhe recordações distantes. Debate-se no entanto com o presente, cuja transformação faz dele um espaço por vezes estranho. Exemplo: o que transparece no poema “Mapa Mundi”, uma referência às cidades cujos nomes mudaram: “E a criança de então,/sou eu/estrangeira naquilo que também é meu.”

A vida muda, é certo, e nessa mudança geram-se fenómenos interiores que absorvem igualmente essa mutação exterior, transformando a pessoa. Kunuar toca-nos pela observância desse drama, pelo seu imenso olhar sobre a existência de um povo a lutar por uma vida digna. É um livro dolorosamente belo, seguro e múltiplo no dizer. E de uma humanidade sem artifícios semânticos nem adjectivos de adorno sentimental. São palavras que ficam connosco, no espírito e no coração. Uma leitura vivificante e com toda a tristeza do fogo que alimenta a nostalgia.

O amor

Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você se decepciona. Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.

Madre Teresa de Calcutá