Meditação de sábado

Há dias em que as palavras me cansam. Sinto-as nos bolsos como pedras, nas unhas como aves predadoras. Farto-me delas como dos presunçosos e aborrecidos.

Não as amo, não as venero. Como as mãos, estão aqui sobre os joelhos. Fazem parte deste corpo. Não penso nelas: são a voz dos meus dedos. Mas cansam-me, invisíveis na sua nomenclatura simbólica.

Prefiro o mar, esse que não tenho, tropical, morno, e água de coco na boca. Prefiro a companhia de uma mulher. Prefiro uma mota, uma máquina fotográfica e um papagaio de papel a subir numa rua de Luanda. Prefiro um uísque num pátio mexicano, um merengue, um samba ao cair da tarde. Prefiro dançar descalço na areia e sob palmeiras. Prefiro viver numa jangada nas correntes doces de um rio, esquecer-me, esquecer, aprender tudo de novo, e com arte: ser uma criança a correr no coração de um velho.

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4 pensamentos sobre “Meditação de sábado

  1. Tantas vezes que as palavras também me cansam, Eduardo. Tudo nos cansa em diferentes fases, momentos, minutos, segundos. A sorte é que, raramente, tudo nos cansa ao mesmo tempo. A sorte é que quando uma coisa nos cansa, outra nos estimula. A sorte é que isso que nos estimulou, acabando também por nos produzir cansaço, rapidamente terá alternativa.
    Mas se tudo nos cansar ao mesmo tempo? Deus. No cansaço. Sem cansaço. Antes e depois do cansaço.
    Penso sempre nas palavras do teólogo Peter Stilwell sobre Deus – os homens cansam-se, os homens aborrecem-se, porque os homens esquecem-se de Deus. Penso sempre nas suas homilias, sublimes, profundas – sinto sempre a conformidade das suas palavras com a prática – penso sempre no seu sorriso verdadeiramente feliz perante os gestos mais simples do mundo – e sempre tão nobres – de todo e qualquer ser humano, penso sempre na forma como cada gesto novo, ligado à amizade, à solidariedade, o comove, o entusiasma, o faz olhar para a vida sempre com sentido profundo, admirável. Penso sempre no seu interior, ao ouvir os cânticos tão sublimes que entoam na igreja pela voz bela de um ser de nome Duarte e de uma comunidade que o acompanha. Penso sempre no olhar penetrante do teólogo Peter Stilwell , um olhar que olha, contrariamente a uma sociedade que deixou de olhar – uma sociedade que desconhece ser no olhar que conhecemos o outro. Um olhar que olha nos olhos para conhecer, para perceber – sem nunca se cansar. Gosto de olhar fundo. Gosto de olhares fundos. Porque os olhares fundos falam do fundo. Se, porventura, hoje tudo me cansar, pensarei em Deus e nas palavras do teólogo Peter Stilwell que nunca me cansam, nos cânticos sublimes que me chamam.
    Um abraço.
    Maria Antonieta Preto

  2. Tanto que precisamos de iluminação. Veja, caro Eduardo, como o seu sentimento do dia, suscitou o comentário que acabei de ler, como suscita o meu. Que outros suscitará? Quantos irão ler o seu blogue? Quantos farão silêncio ao lerem o seu blogue porque nada tem para dizer, porque desconhecem a iluminação?

  3. O cansaço, o cansaço. O mar, a mota, o outro, o papagaio de papel. O uísque. Tudo bom. Tudo verdade. Tudo uma ilusão. E no meio de tudo essa maravilha que é Deus. E no meio de tudo nada, nada, porque… o que somos? O que não somos?
    Joana P

  4. Duas perspectivas de dois escritores, a sua Eduardo Bettencourt Pinto e a de Maria Antonieta Preto. À primeira vista, a sua parece mais terrena, a de Maria Antonieta Preto está dentro de algo muito fundo, a caminhar cada vez mais para essa profundidade, a desligar-se do mundo. Mas, pergunto, não haverá nos dois um olhar sublime, uma vontade sublime, uma vontade funda ainda que apresentando diferentes perspectivas a partir do cansaço das palavras? E não é bom que exista o sublime em duas perspectivas tão diferentes? Talvez não haja assim tanta fragmentação, talvez o espiritual tenha muito a dizer ao terreno, talvez o terreno seja ainda necessário para que o espiritual reforce mais essa espiritualidade. Talvez sejam um bloco. Abro este blogue e fico com vontade de seguir essa espiritualidade, abro este blogue e tenho vontade de mar… Obrigado aos dois escritores por esta reflexão. Afonso.

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