Mês: Julho 2009

Peregrinatio

Tenho poucos amigos no Verão. Ou escondo-me num poema impossível à procura do mar, ou ando pela brisa, de mota ou bicicleta, a inventar a minha vida.

Hoje o sol foi uma maçã madura caída na tarde. Quando voltei, a esplanada estava vazia. Deixei o capacete e as luvas numa mesa e fui buscar um café.

Sentei-me. Na mesa ao lado dois tipos. Um deles olhava o céu; o outro estava agarrado ao telemóvel, a dizer coisas doces à namorada. Tinha um sorriso de triunfo, imbecil. Palavras cor-de-rosa, previsíveis, vazias. Meu Deus!, tanta poluição sonora!

Eu só queria um pouco de silêncio, receber a noite nos meus braços, os seus fios de luz apagada. Tomar um café e pensar como o mar é lindo e calmo em Setembro.

Fui-me embora o mais rapidamente possível. Encontrei a noite pelo caminho, um túnel de sinais inextricáveis. Acelerei. A brisa, como uma chuva gelada, iluminou-me o caminho.

Não sei dizer que te amo quando estou triste

Passo afogueado, perdido em geografias estrangeiras. Vou de calções, sandálias, e uma velha t-shirt que tem uma frase estranha estampada no peito: “The name of all things”.

Julho é um mês fugidio. Corre como um galgo sobre pedras translúcidas e raras cintilações da alma.

O calor estala numa vibração de claridade. Onde está o mar? Lembro-me de uns olhos escuros, de um mel delicioso. Havia uma costa enorme e inquebráveis ritmos da memória. Pegadas de sombra. Lembro-me que a alegria era uma coisa triste, um pássaro, e eu acabava devagar a última cerveja.

Há coisas assim: bocadinhos do mundo, fulgores. E os dias correm como se eu fugisse do tempo.

Que dizer?

Escrevo neste papel o dia que acaba. Volto às palavras, à sua voz rouca e bela e aninho-me no seu eco. O filho pródigo e ingrato. E assim me extingo, dançando entre vírgulas.