Mês: Setembro 2009

Sob as estrelas, de bicicleta /3

3

Um pouco adiante decido-me a uma pequena paragem. Sinto calor. Tiro o casaco e bebo um pouco de água. Faço flexões às costas enquanto mergulho o olhar na paisagem em frente. Está uma manhã divinal.  Nuvens brancas e altas correm para o mar. Parecem dançar com o azul.

Pego no casaco, dobro-o e encaixo-o entre a tenda e o saco de dormir. Volto a colocar o capacete, monto a bicicleta, e sigo a linha branca, muito direita, que delimita as faixas de rodagem.

Minutos depois passa um tipo por mim. Ligeiro, leva apenas uma mochila às costas. Desliza como a brisa, sem esforço, na sua bicicleta. Deixo momentaneamente de o ver quando desaparece na descida do viaduto.

Ultrapasso a pequena inclinação sem dificuldade e então vejo-o. Abrandou a marcha para irmos conversando até ao porto.

– Você leva uma carga que faz favor!
– Vou atravessar o mundo!
– Atravessar o mundo? – diz incrédulo.
– Apenas por uns dias…

Chama-se Paul e adora bicicletas. Mais tarde confessa-me que é a sua terapia. Vai também para Salt Spring. Perdeu o emprego e precisa de algum tempo para reflectir. Tem hotel reservado em Ganges mas não sabe quanto tempo ficará.

Vejo as gaivotas de Tsawwassen, o mar, o sol tão branco como uma rosa de água. Um alívio. Levei três horas a chegar aqui, a batalhar o tráfego. Cinquenta e seis quilómetros de ruídos com a minha casa peregrina entre os pés.

(continua)

doca_sidney

Sob as estrelas, de bicicleta/ 2

2

A enorme subida deixa-me sem fôlego e apreensivo. Não há uma linha dedicada às bicicletas. Carros e camiões passam muito perto e a grande velocidade. Subo o passeio. Sinto-me mais protegido das caixas de metal com rodas. Mais à frente, quando a estrada alargar, retomarei o meu curso normal.

Viajo há hora e meia e preciso de fazer o ponto da situação. Estou agora em Surrey, uma área urbana. Entre a zona comercial avisto dois sujeitos sentados numa esplanada. Talvez me possam informar.

Fico a saber que, de carro, levaria 20 minutos a chegar à auto-estrada 17. Pelas minhas contas será, de bicicleta, pelo menos cinquenta minutos. Agradeço e continuo.

Algum tempo depois sinto-me aliviado quando, por fim, torno à esquerda após uma ponte.

O percurso agora é plano, embora o horizonte morra longe, longe ainda dos meus olhos.

O saco com a máquina fotográfica, que levo às costas, revela-se um estorvo. De vez em quando sacudo-o para o endireitar. Na próxima vez, trago apenas uma máquina pequena, dessas que se escondem no bolso. Esta parece um corvo às bicadas.

Avisto um polícia parado à beira da auto-estrada. Abre o vidro quando me vê parado ao seu lado.

– Em que o posso ajudar? – pergunta-me curioso.

– Falta muito para chegar a Tsawwassen?

– Está quase lá. A uns vinte minutos – diz com um sorriso.

Agradeço-lhe. Antes de fechar o vidro recomenda-me que tenha cuidado com o tráfego. Deseja-me boa sorte e faz um aceno de despedida.

(continua)

Sob as estrelas, de bicicleta (série)

1

São 6:15 da manhã quando saio de casa. A luz matinal é ainda de uma claridade ténue. A bicicleta vai pesada, os quatro sacos cheios, à frente e atrás. Noto que os calcanhares, à medida que pedalo, roçam os de trás. Paro e dou um jeito. Fica um pouco melhor. Decido colocar os pés um pouco mais para a frente nos pedais. Deixo então de ouvir o ruído que me irrita.

Vou de luzes acesas por uma zona escura até avistar a estrada. Viro à esquerda em direcção à ponte. Vou subindo, com um pouco de esforço. Mudo de velocidade repetidas vezes até sentir o andamento menos penoso.

Meia hora depois, para minha surpresa, alcanço Langley. São mais de dez quilómetros de casa, com semáforos e a subir.

O tráfego automóvel já é notório. Meto à direita, pela auto-estrada 10. Evito, quanto posso, as pedras pequenas que abundam. Um furo não seria nada agradável. Tenho de estar no porto antes das 10 para apanhar o barco para a ilha de Salt Spring. Qualquer percalço, mínimo que seja, pode comprometer essa possibilidade. Não me convém perdê-lo. O outro barco sai de tarde, às 7:10, e só chega ao destino três horas depois. Será complicado arranjar, no escuro, um parque de campismo. Terei de ficar num hotel e isso não me convém. Contrairia completamente o propósito desta viagem: proponho-me fazê-la do modo mais frugal possível.

(continua)

Memória de Tenerife

A alegria corria descalça entre os pombos irrequietos da Plaza Bolívar. A voz mais bela do mundo amanhecia sobre as palavras. Não era outono nem inverno; eram sementes que voavam entre os dedos. De tão brancos e nocturnos, queria para mim o cântico e os olhos dessa poesia.

Um poeta ama o universo de cada instante. É nesse que estou, agora e sempre, atravessando o oceano da memória.