Mês: Outubro 2009

Entre os dedos, a imagem

Para Alzira Silva

Em cada fotografia que tiro tento descobrir um novo universo de cores, formas, objectos e fulgurações. Aprendo assim a conhecer um outro mundo. Embora aparente, há que encontrá-lo entre os contornos do mistério. Um ângulo novo é uma reconstrução imagética. Eleva os sentidos a uma catarse visual, à busca de significados novos para o ser.

Estou na Fotografia porque urge-me encontrar outros caminhos para o quotidiano, sem palavras. Apenas o silêncio profundo ante o inesperado – uma cadeira num charco, o cão da cidade atrelado à mão de um velho, que é a nossa mão, frágil e instável, segurando as nossas contradições.

Curioso: as sementes da minha poesia começaram em S. Miguel. Muitos anos depois, foi através de uma máquina fotográfica que vi o mar nos olhos de uma mulher. Era Verão, e sobre a ilha pairava uma nuvem branca. Eu não tinha os pincéis de Matisse, nem o seu génio. Apenas aquela máquina, pequena, trémula e indecisa encostada ao rosto.  Premi o botão e a nuvem entrou na memória. O mar cantava, sempre foi assim nos Açores: como uma imensa língua canina acariciando-me a alma.

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Exposição de Fotografia

No decurso de Praia, Outono Vivo, Açores, estará patente ao público, entre 30 de Outubro e 8 de Novembro 2009, a Exposição de Fotografia de Eduardo Bettencourt Pinto Dançar com a Intimidade. A organização é da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Terceira, Açores.

Para mais informações, por favor consultar a página da organização (Material gráfico), clicando aqui: www.outonovivo.com

Sinopse (do catálogo):

Dançar com a intimidade

Eduardo Bettencourt Pinto

A ilha descobre-se a cada instante. Revela-se nos momentos limpos da sua paixão, nas suas florestas de luz que tanto surpreendem e cativam o visitante.

Passei por aqui à procura do Tempo. Encontrei-o na nobreza dos cavalos, na altivez desconfiada das gaivotas.

Descobri-o na leveza do silêncio, nas flores de sal e vento e no brilho fulgurante das plantas.

Sinto então que toda esta beleza dança dentro do olhar numa harmonia única, que dói no sangue e na alma como se um viajante se perdesse para sempre no meu imaginário à procura do mundo inicial.

Assim me perdi e me encontrei na ilha.

Sexta-feira sem Herta

Pensei hoje em Herta Müller, a recipiente deste ano do Nobel. Li um livro seu há uns anos atrás, O homem é um grande faisão sobre a terra. Lembro-me de ter gostado. Mas se me perguntarem detalhes, desculpem, não há vestígios. São pegadas sem rumo no deserto da memória. Foi há muito tempo. Ontem já é uma eternidade.

Procurei o livrinho nas estantes aqui de casa, monstros incontroláveis que avançam já para o tecto. Gostava de o reler. No entanto, não fui capaz de o encontrar. Má vista, suponho. Ou desatenção. (As mulheres dizem que os homens nunca encontram nada; é verdade. É o meu caso. Já ficou provado imensas vezes).

Pela noite, fui ao centro comercial à procura de uma ferramenta para a minha bicicleta. Aproveitei e fui a uma livraria. De Herta, nada, disse-me a empregada. Era uma rapariga baixinha, cabelos escuros, curtos, olhos impermeáveis e resguardos pela tepidez de umas lentes graves.

Noite frustrante: vim para casa sem ferramenta e sem livros.

O conhecimento, penso, começa na intenção. O resto é circunstancial. Como foi hoje. A necessidade faz o resto, quero dizer: amanhã continuo a busca, consciente embora de que sou homem, distraído e falível.

Na aventura, não importa qual, reside o gozo todo.

Quanto a Herta, vou lê-la desta vez com mais atenção.

Sob as estrelas, de bicicleta /9

9

Desço a longa estrada sem pressa. A minha prioridade é encontrar um lugar público onde tomar banho. Pior do que ser um sítio banal e claustrofóbico, a impraticabilidade do meu parque de campismo é o que me desaponta mais. Não tem chuveiros, por exemplo. Qualquer movimento exige esforço físico. Mas este não é o momento para queixas. Há que descobrir, neste espaço estranho, o mínimo conforto.

Na rua principal dirijo-me a um sujeito que passa. Diz-me que na marina, logo a seguir, há banheiros.

Vejo os barcos, a tranquila água da tarde sob uma espécie de radiação lunar. Do lado esquerdo, um pequeno edifício. Parece a administração da marina. Descubro, através dos vidros, uma senhora por trás de um balcão. Entro? Prefiro averiguar um pouco mais e vou até à doca.

– Sabe se há balneários por aqui? – pergunto a uma senhora que está encostada a um corrimão de madeira.
– É ali mesmo, mas está ocupado.

Diz-me então o número do código para poder entrar. É de uma simpatia diáfana. Enquanto conversamos, vagueiam gaivotas na luz fluída. As nuvens são brancas e calmas. O tempo, um guaraná perto da boca.

(continua)

Sob as estrelas, de bicicleta /8

8

Num instante encontro o desafio mais incontornável desta viagem: uma subida tão íngreme e penosa que até os carros gemem. Progredimos muito lentamente. Com o esforço vejo a lua, o sol e as estrelas estampados no asfalto. O mundo num filme lento a cada impulso dos pedais. Até que de repente a corrente sai. Sensação frustrante. Encosto à beira da estrada. Preciso de um pedaço de ramo. Não quero sujar as mãos de óleo. Encontro por fim um pau e conserto a corrente.

Agora como subir, sem um impulso? Decido empurrar a bicicleta estrada acima. Não há outro modo.

Longos minutos depois, numa bifurcação, a Linda e a Winnie. Esperam por mim. Digo-lhes que o meu parque de campismo é ali, vi o sinal. Despedimo-nos. Fico de telefonar-lhes no dia seguinte, pela manhã.

Desço uma estrada de terra batida, evitando as pedras o melhor que posso. Paro à entrada. Noto uma secretária sob um toldo amarelo, junto a uma espécie de casa pré-fabricada. Ninguém. Reparo então num cartaz. Diz, em letras grandes, que o “manager” se encontra ausente. Os campistas podem escolher à vontade os lugares disponíveis. Curioso, penso.

Levo a bicicleta pela mão e deixo-a fora do caminho. É um lugar feio, numa cova, sem paisagem e com a estrada principal por cima. E agora? Se a topografia da ilha fosse outra, procurava um lugar mais aprazível. Cansado, não me atrai a ideia de andar por aí, morros acima e abaixo, com uma bicicleta pesadíssima, à procura de algo melhor.

Dou ainda uma vista de olhos pelo parque. Decido-me então por um lugar que está perto do quarto de banho e da água.

Monto a tenda, tiro os sacos da bicicleta e meto-os lá dentro. Depois agarro no saco da máquina fotográfica, meto o sabonete num dos bolsos, e ponho-me a caminho de Ganges. A pé.

acampamento_de_ganges

Acampamento em Ganges.

(continua)

Sob as estrelas, de bicicleta /7

7

– Encontramo-nos em Ganges. No primeiro bar em que entrares, vês-me lá – diz-me o Paul, lançando a mochila às costas.

Saímos todos em fila. Subida acentuada mas sofrível. Vou mudando as velocidades até ficar na menos esforçada. O Paul à frente, seguro no pedalar; depois a Linda e eu; a Winnie na cauda. Alguns quilómetros depois o Paul desaparece da nossa vista. Sem peso, voou como um pássaro.

Não lhe disse nada, mas a ideia do bar não me atrai. Isso implica gente, ruído, álcool. Eu venho da cidade e nunca, mas nunca, vou a bares. Prefiro uma bebida em casa e no esplendor da tarde. Ou um sumo de manga, ouvindo os pássaros no meu balcão enquanto leio. Os bares são lugares premeditados; a solidão disfarçada toma uma forma sepulcral nos gestos esvaídos, e as conversas elevam-se a berros. O interlocutor passa a ser uma espécie de caixa de ressonância onde o som da nossa voz se fragmenta em mil cacos de futilidades.

As senhoras vão ficar num centro de yoga. Eu vou para um parque de campismo. Trago a direcção no bolso mas não sei como lá chegar. Sei que fica a pouca distância de Ganges. Segundo o senhor com quem falei, o parque é bonito, sob árvores. No Outono deixam cair folhas com a transparência de um oiro fosforescente. Essa imagem agrada-me. O Outono é uma estação lindíssima, segura como um amor tranquilo. Então é que me lembro que ainda estamos no Verão, embora já no fim. Procurarei outras transfigurações.

Na rua principal avistamos um centro de turismo. A Linda e eu entramos.

A senhora oferece-me um mapa da ilha e aponta com uma esferográfica a direcção que procuro. São quase duas horas da tarde. O sol parece estar a pino. Volto a pôr os óculos de sol e saio.

Sob as estrelas, de bicicleta /6

6

Os meus companheiros de viagem são pessoas cultas. Viajam de bicicleta por opção, por gosto e independência. Não podem salvar o planeta desta poluição horrível que nos cerca. Fazem-no porque é uma maneira idílica de absorver com significado os lugares por onde passam entre a brisa da aventura. Têm carros como quase todas a pessoas mas deixam-nos em casa. Compreendem que em muitos casos o automóvel passou a ser uma jactância social, que dá aos seus utentes uma falsa imagem de soberania. Compram-se carros de marca para impressionar os vizinhos, os amigos, os «impressionáveis», aqueles que se deixam abater sob o mínimo sopro materialista. Os que viajam de bicicleta deixam-se tocar pelas páginas de um bom livro, pelo som da Natureza, pela música que atravessa séculos e soa sempre a música e não a berro esquizofrénico.

E falamos de tudo isto enquanto nos deixamos rodear de vento e sol, sentados numa caixa de metal no convés.

De repente uma voz feminina no altifalante a comunicar que chegamos a Long Harbour. Vejo o porto adiante, as gaivotas da tarde em círculos vagarosos em redor de pequenos barcos. Salt Spring!

Passaram-se três horas, um relâmpago. Ouvi histórias, partes de mundo. Se tivesse vindo de carro possivelmente estaria lá dentro, como todos os outros passageiros, sentado na minha confortável indiferença social.