Sob as estrelas, de bicicleta /6

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Os meus companheiros de viagem são pessoas cultas. Viajam de bicicleta por opção, por gosto e independência. Não podem salvar o planeta desta poluição horrível que nos cerca. Fazem-no porque é uma maneira idílica de absorver com significado os lugares por onde passam entre a brisa da aventura. Têm carros como quase todas a pessoas mas deixam-nos em casa. Compreendem que em muitos casos o automóvel passou a ser uma jactância social, que dá aos seus utentes uma falsa imagem de soberania. Compram-se carros de marca para impressionar os vizinhos, os amigos, os «impressionáveis», aqueles que se deixam abater sob o mínimo sopro materialista. Os que viajam de bicicleta deixam-se tocar pelas páginas de um bom livro, pelo som da Natureza, pela música que atravessa séculos e soa sempre a música e não a berro esquizofrénico.

E falamos de tudo isto enquanto nos deixamos rodear de vento e sol, sentados numa caixa de metal no convés.

De repente uma voz feminina no altifalante a comunicar que chegamos a Long Harbour. Vejo o porto adiante, as gaivotas da tarde em círculos vagarosos em redor de pequenos barcos. Salt Spring!

Passaram-se três horas, um relâmpago. Ouvi histórias, partes de mundo. Se tivesse vindo de carro possivelmente estaria lá dentro, como todos os outros passageiros, sentado na minha confortável indiferença social.

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