Mês: Novembro 2009

Sob as estrelas, de bicicleta /10

10

Enquanto espero, surge, vinda da marina e acompanhada de um cão preto, uma rapariga. Vem ao mesmo. Espera, um pouco afastada de nós, encostada ao corrimão de madeira. O cachorro corre de um lado para o outro na brincadeira.

Enquanto aguardamos, converso com a senhora que está ao meu lado. Os seus olhos, de um azul doce e claro, estão abandonados a um inextricável mistério. Parecem despir um olhar de água e uma emoção que flutua até ao interlocutor.

Diz-me que está acampada no Ruckle Park, no extremo da ilha. Digo-lhe que também vou para lá. Ela confirma o que tenho lido a respeito do lugar, aparentemente um recanto paradisíaco.

Fico ainda mais entusiasmado. No entanto, não sei quanto tempo ficarei em Granges. Gostava de explorar um pouco as redondezas.

A amiga chega, uma senhora desenvolta de longos e soltos cabelos brancos. Apresentamo-nos. Chama-se Linda; a amiga, Marlene.

A rapariga, vendo-nos a conversar, fica indecisa. Dou-lhe a vez para o chuveiro e ela desaparece por trás do edifício seguida pelo cão.

As senhoras vão-se embora. Entretenho-me a reparar na marina. Está cheia. Salt Spring é uma ilha muito procurada.

Antes que alguém chegue, vou sentar-me num banco perto dos balneários e aguardar a minha vez.

Daí a pouco sai a rapariga, os longos cabelos negros húmidos e cheirosos. Agradece-me outra vez e desaparece seguida pelo companheiro canino.

(continua)

Sentimento de Chuva

A ressonância diluvial das palavras,

quero dizer, a tempestade

da minha boca sobre os teus cabelos.

Calo-me entre o sentido do teu rosto e as ruínas.

Os flamingos fugiram e uma revoada levantou-se por cima

dos teus olhos.

O sul era tão grande dentro de ti!

Depois foi o tempo onde os jardins envelheceram

e os gestos murcharam.

A voz inebriada das guitarras, a festa das rosas,

a resina de velhos ritos, tudo agora

rente a um choro de cigarras.

Dancemos.

O crepúsculo acabou

de incendiar os barcos no cais;

não há ninguém para além de nós

e uma gaivota a perder-se no universo.

A História do Nosso Mundo

“Meu Deus, que deserto!” diz a minha mãe. Refere-se aos membros da nossa família que, no decurso da sua vida, foram desaparecendo deste mundo.

A devastação é imensa – pais, tios, avós, irmãos, primos. O companheiro. Todo o seu mundo. Habitam agora o imaginário que cultiva na memória. As recordações afundam-se nos instantes em que pensa neles. A voz treme-lhe e os olhos escurecem.

Tenho diante de mim não apenas a minha mãe, mas a sobrevivente de uma estirpe. Oiço-a enquanto chove e bebemos café numa melancólica tarde de Outono.

Chego a casa e a sua voz é uma luz. Alcança os meus ouvidos desde a mais antiga casa do Tempo. Depois oiço os seus passos arrastados. A sua precária mobilidade denuncia o cansaço dos anos. “Rocky”, o cão, vem à frente.

Nem sempre está bem. As dores escolhem o seu corpo como o garimpeiro as águas do rio. Todas as semanas chegam os comprimidos em embalagens com as doses organizadas. A meticulosidade do Sam, o nosso farmacêutico, é exemplar.

As suas conversas iluminam-me. Conheço, através delas, a Ponta Delgada de outros tempos. Os seus dedos correm  antigas fotografias dos álbuns, imagens plangentes tão próximas do seu coração.

Reconheço apenas alguns rostos. Vou sabendo nomes de outros a meio de interjeições de pesar.

Ponta Delgada é uma cidade que me comove. Sempre que lá vou, levito no passado. Lembro-me sobretudo do marcante período que eu e os meus irmãos passámos lá, na infância. Como esquecer as ruas húmidas, o cheiro das casas, a extrema bondade da nossa tia Veneranda?

Com o dinheiro que nos dava comprávamos “línguas de gato”, uma espécie de biscoitos em miniatura. A pequena loja era mesmo ao lado.

Da sua casa restam apenas as olaias da frente, de uma majestade sólida, e em cujo rumor repousa a metálica luz da melancolia. Perderam as paredes de outros tempos, os muros altos, o balcão que dava para a Avenida Lisboa.

Hoje são o marco de uma família. O hotel de luxo que, imponente, ocupa agora aquele espaço, não testemunha essa evidência.  Nem os dias mais antigos da minha vida.

Açores

Regressei há poucos dias dos Açores. Na última tarde, a bruma caía sobre o mar e uma brisa húmida corria as areias da praia do Pópulo. Uns uísques na esplanada do Vamberto, depois o almoço, e aquela melancolia contínua de quem está de partida. À mesa, um amigo do Vamberto de cujo nome não me recordo neste momento.

A chuva caía, como sempre caiu nos Açores: cheia de lágrimas. Eu ali, na ilha da Rosa e da minha mãe, comovido como um menino que está prestes a perder um tesouro.

Os dias na Universidade dos Açores foram belos e cheios. Horas sentado a ouvir. Disse também algumas coisas. As palavras saíram de repente entre a luz do microfone e o silêncio fresco da manhã. A voz dançou sobre o percurso da escrita e a sinuosa estrada daquilo que tem sido a minha vida.

Escrevo este apontamento numa madrugada escura de Pitt Meadows. Chove também aqui e o vento é instigador de violências no meu telhado. Recordo-me dos meus amigos e da minha família. Entre nós, agora, o silêncio: uma pedra a brilhar no escuro. Pego nela e sinto na mão um pedaço de noite, toda a escuridão do Universo.

Sei que todos nós, nas nossas fronteiras físicas e emocionais, estamos sós. Atravessamos a memória a correr contra o destino. Choramos um pouco este pedaço de terra que temos sob os pés –  o nosso espaço de ser, de convivência com a vida, e todos os seus símbolos. Só nos sonhos abrimos as águas por onde passamos durante o dia em busca de sentido e plenitude.

 

P.S. Voltarei ao diário da minha viagem de bicicleta. Desculpem a inconsistência. Mas a verdade é que o meu cálice transborda.