Açores

Regressei há poucos dias dos Açores. Na última tarde, a bruma caía sobre o mar e uma brisa húmida corria as areias da praia do Pópulo. Uns uísques na esplanada do Vamberto, depois o almoço, e aquela melancolia contínua de quem está de partida. À mesa, um amigo do Vamberto de cujo nome não me recordo neste momento.

A chuva caía, como sempre caiu nos Açores: cheia de lágrimas. Eu ali, na ilha da Rosa e da minha mãe, comovido como um menino que está prestes a perder um tesouro.

Os dias na Universidade dos Açores foram belos e cheios. Horas sentado a ouvir. Disse também algumas coisas. As palavras saíram de repente entre a luz do microfone e o silêncio fresco da manhã. A voz dançou sobre o percurso da escrita e a sinuosa estrada daquilo que tem sido a minha vida.

Escrevo este apontamento numa madrugada escura de Pitt Meadows. Chove também aqui e o vento é instigador de violências no meu telhado. Recordo-me dos meus amigos e da minha família. Entre nós, agora, o silêncio: uma pedra a brilhar no escuro. Pego nela e sinto na mão um pedaço de noite, toda a escuridão do Universo.

Sei que todos nós, nas nossas fronteiras físicas e emocionais, estamos sós. Atravessamos a memória a correr contra o destino. Choramos um pouco este pedaço de terra que temos sob os pés –  o nosso espaço de ser, de convivência com a vida, e todos os seus símbolos. Só nos sonhos abrimos as águas por onde passamos durante o dia em busca de sentido e plenitude.

 

P.S. Voltarei ao diário da minha viagem de bicicleta. Desculpem a inconsistência. Mas a verdade é que o meu cálice transborda.

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3 pensamentos sobre “Açores

  1. Ao saborear um cachimbo, um vinho do porto ao lado, leio tuas palavras e me remeto aos momentos de grandes risadas em que nos deliciamos a bela amizade que temos.
    Te agradeço amigo pelo carinho e pelos momentos em que colocastes palavras, flechas certeiras, que em meus pensamentos tornam-se nós, espaçados pelo oceano que nos separa, que vão desatando em novas palavras a serem buscadas pelo nosso verso.

  2. Tão lindas as tuas fotografias dos Açores, mas não só dos Açores. Que belo o mar. Que lindas aquelas duas mulheres, o gesto simples daquelas duas mulheres. E a fotografia Break smoke. Um gesto tão contemporâneo . Diria que esta é a marca actual das grandes cidades. Deambulamos pelas ruas e tantos os corpos neste gesto de ilusória libertação. Fumar como uma libertação. Fumar como uma compensação. É esta a sociedade que se está a criar. Uma sociedade que rebenta no cigarro, na histeria do futebol e em tantas outras formas. A sociedade a rebentar cada vez mais por estar aprisionada. A liberdade só já no pensamento. Por quanto tempo, Eduardo? Câmaras que nos filmam por todo o lado. Telemóveis que nos detectam. Bilhetes de identidade com chips, obrigatórios para todos os cidadãos a partir de 2015. Chips nos animais e nas pessoas. Chips na pele: um dos lugares mais íntimos, livres e sagrados do ser humano. O mundo da liberdade acabou. Mesmo. A liberdade só depois da morte. Poucos parecem entender essa loucura perigosa e fatal que se instalou na sociedade. Que mundo imoral.

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