Mês: Janeiro 2010

Miguel Torga dito por Aurelino Costa

A poesia ganha outra dimensão na voz de certas pessoas. É uma espécie de reverberação do som, algo que cintila e não se vê. Uma brisa da alma. Quedamo-nos inquietos perante o inominável. As palavras ardem num branco sublime, levam-nos até às lágrimas ou ao júbilo mais transcendente.

É um dom raro. Não é a voz que conta mas a sensibilidade por detrás dela. Aurelino Costa é um desses poetas. Ele não diz poesia: canta-a com paixão.

Está com ele o piano de António Victorino de Almeida. Neste novo CD, a conhecida dupla traz-nos a intensa, dorida poesia de Miguel Torga.

Poemas belos, ditos e acompanhados com elegância. A voz, sempre a voz de Aurelino Costa elevando-se entre as notas do piano – a terra antiga, as pedras e as serras de Miguel Torga.

A poesia não dá aos pobres o volume de uma moeda, ou um lenço onde se possa esconder todo o outono da melancolia. Mas é no seu ardor que os olhos de uma mulher são a coisa mais linda do mundo, que um pássaro sai dos nossos dedos e parte de repente para a madrugada. A poesia dá sentido ao inexplicável. Vem ter connosco como alguém que regressou do passado para nos abraçar.

Ouvindo Aurelino da Costa, vejo como certos dias foram de trigo, como a esperança é a sombra de um moinho branco caída numa trança. Quero ainda dizer, o Verão, o azul do Verão, a dormir nas nossas mãos nas noites mais longas e tristes.

Uma voz, a poesia de Miguel Torga. Um piano. Que deslumbramento nesta viagem pela música das emoções!

Um poema no bolso


Carlos Faria

Falava tão de dentro que as suas mãos cantavam. Soltava-se em gestos largos como um marinheiro cheio de júbilo por sentir os pés na terra amada. Quando vinha de S. Jorge, a ilha amada, trazia os olhos cheios de poemas, o verde fosforescente das escarpas e o secreto rumor do sol que colhia em cada rua, metaforicamente descalço sobre o silêncio.

Encontrámo-nos muitas vezes na saudosa piscina de S. Pedro quando ele aparecia em S. Miguel. Muitas vezes puxou do seu caderno de apontamentos para me ler um poema com a sua voz de barítono em descanso. Quase sempre eram poemas que ele apaixonadamente dedicava à sua ilha açoriana de eleição: S. Jorge. Enquanto lia as ondas do mar rebentavam contra as rochas negras e eu bebia as suas palavras como se fossem água.

Eu era jovem e não percebia ainda muito bem que um poeta não tem país e não tem terra. O seu coração é uma viagem constante pelo Tempo e pelas secretas geografias da vida.

Oiço os adágios de Albinoni e recordo a noite em que eu, o Carlos Faria, o Onésimo Almeida, o Vamberto Freitas e a Maria Aurora Homem estávamos numa esplanada nas Velas. O Carlos, exuberante como sempre, contava histórias naquele ritmo que era tão seu, cheio de vida, energia e esplendor. Foi um serão, como sempre, memorável.

Quando um amigo parte, tudo passa na memória como um filme. Tão pobres, frágeis e efémeros, que podemos fazer senão gastar em palavras o que nos vai no coração? No fundo, queremos apenas dizer que um amigo fica para sempre dentro de nós como uma árvore. Que as suas folhas foram todos os momentos de convívio são, e que a sua vida nos marcou e foi relevante neste mundo.

O Carlos Faria era um português antigo, nobre, cuja amizade não esmorecia como uma chama quase no fim. Tinha o abraço de sempre nos seus braços de ex-campeão de halterofilismo de Portugal, no bolso da camisa os últimos poemas, na voz um calor sem ressentimentos, sempre jovial, felino.

Sim, Carlos, continuo a ouvir-te. Continuaremos sempre, os teus amigos.

Não descanses: lê os teus poemas aos anjos que passam. Canta a ilha nessa dimensão em que o Tempo é apenas uma gota de silêncio entre os dedos.

Eduardo Bettencourt Pinto
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Flash (A União, 18 Nov. 1972)*
Karlos Faria

De avião, da Terceira para o Faial… Aqueles minutos breves por cima de S. Jorge… A ilha a correr, ela própria a correr, toda verde e esbelta, virgem e nua, de verde e azul!

Sobrevoar S. Jorge dá-me uma alegria nova e diferente. É um longo corpo de pedra, uma natureza insular que sinto à sua altura humana e geográfica. S. Jorge: a ilha, a mais ilha, a mais demorada, tranquila, isolada de silêncio, longa garupa dum cavalo de basalto! A ilha mais ilha, a povoar o mar que a viaja!

Vou de avião por cima de S. Jorge, cortando a ilha em oblíquo, assim: para que a ilha demore o mais tempo possível na sua cintura de serra… Vou de avião: mas não me sinto mais alto: estou à altura das suas fajãs, ombro a ombro com o seu povo!

S. Jorge: um grito de pedra silencioso e verde. E nuvens como punhos cerrados, depois como mãos abertas! E a ilha, sempre a ilha; coração de pedra, mas a pulsar, a bater, a mergulhar no mar… ah! como em S. Jorge o mar é menos longo, peito aberto do Topo aos Rosais…

De avião: S. Jorge sabe-me a caminhada. Pareço que caminho, toco com os lábios o Pico da Esperança, que caminho… Vou de avião… e desço descalço a Ribeira dos Vimes até à Caldeira… Vou de avião?

O meu companheiro de viagem diz: “esta ilha é S. Jorge. Estamos a passar por cima de S. Jorge”. Isto é fisicamente verdade, a verdade dum passageiro logicamente inviolável. Eu não. Eu sinto que vou por S. Jorge. Por S. Jorge estrada, freguesia, povo, canada, serra, cor, drama, silêncio, natureza, alegria, respiração. Para o meu companheiro a viagem é passar, para mim é estar.

Ele vê-se do avião e no avião. Eu vejo-me de terra e é lá que existo, e penso que os aviões são realidades falsas ou breves enganos do alto…

Não há engano possível: a única realidade é S. Jorge!

* Texto de Carlos Faria: cortesia de Onésimo Almeida e Artur Goulart

Onésimo T. Almeida

Declarado o ano de Charles Darwin, 2009 trouxe-nos novas oportunidades para nos reaproximarmos dos seus conceitos e ponderarmos um pouco mais sobre a Teoria da Evolução, ou seja, a hereditariedade e a mutação das espécies.

Nesse contexto (e não só), apareceu em Portugal um novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias, com a chancela da Gradiva.

Há muitos anos Professor de Filosofia na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, OTA tem vários livros publicados em diversas áreas literárias, desde o ensaio, ficção (teatro e contos) à crónica, sendo, neste género, colaborador, por exemplo, da revista LER e JL (Jornal de Letras) bem como de outras publicações. Além disso é presença frequente em colóquios de vária índole, nos Estados Unidos, Europa e Brasil. Um nome, enfim, que não requer apresentação.

Desde a mundividência marxista ao determinismo biológico, OTA debruça-se, numa escrita elegante e sem desnecessários hermetismos linguísticos, sobre a nossa condição humana, reflectindo sobre a sociobiologia, a psicologia evolutiva e o paradigma darwinista. O capítulo, por exemplo, intitulado «Do (re)conhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional» revela uma sagacidade e humildade raras. Cito esta passagem lapidar: «Confrontado há tempos com a proposta de intervenção num colóquio sobre a questão da «unicidade do conhecimento», chamei a atenção para o facto de uma das grandes marcas do conhecimento nos nossos dias ser a consciência da nossa ignorância.»

Para aqueles que se interessam por estas questões, recomendo vivamente este livro. Para mais informações p.f. clique aqui.

Namibe

Um documentário breve mas interessante sobre o Namibe, Angola. Estive lá em Março 1976, antes de sair do país. Nessa altura, os angolanos já se matavam uns aos outros enquanto as potências mundiais discutiam que privilégios obter entre o caos e a cinza.
O cenário mudou, todos sabem mais ou menos a história… Esta, no entanto, é outra. É a dos lugares e a do povo.
Podem ver aqui:

Canção do romântico triste

Talvez te encontre um dia rente a muros poluídos ou na breve sombra do verão numa outra cidade. Teremos, quem sabe, as últimas palavras diante de um copo de chocolate. Os anos que se foram parecerão as ruínas amarelas de um calendário inescrutável. Sei que te amarei como a um livro de poemas, folha a folha, como à alegria de um dia tão branco como o desejo.

Que imagem colherei de ti  além do rumor do pássaro que és num ramo de magnólia, momento a momento, nos desertos mais íntimos e nocturnos?

Valerá, eu sei, a tua voz nas minhas mãos, os teus cabelos, o breve momento em que se aprende o amor até tudo partir com o vento.

In One day between us
(versão portuguesa)