Miguel Torga dito por Aurelino Costa

A poesia ganha outra dimensão na voz de certas pessoas. É uma espécie de reverberação do som, algo que cintila e não se vê. Uma brisa da alma. Quedamo-nos inquietos perante o inominável. As palavras ardem num branco sublime, levam-nos até às lágrimas ou ao júbilo mais transcendente.

É um dom raro. Não é a voz que conta mas a sensibilidade por detrás dela. Aurelino Costa é um desses poetas. Ele não diz poesia: canta-a com paixão.

Está com ele o piano de António Victorino de Almeida. Neste novo CD, a conhecida dupla traz-nos a intensa, dorida poesia de Miguel Torga.

Poemas belos, ditos e acompanhados com elegância. A voz, sempre a voz de Aurelino Costa elevando-se entre as notas do piano – a terra antiga, as pedras e as serras de Miguel Torga.

A poesia não dá aos pobres o volume de uma moeda, ou um lenço onde se possa esconder todo o outono da melancolia. Mas é no seu ardor que os olhos de uma mulher são a coisa mais linda do mundo, que um pássaro sai dos nossos dedos e parte de repente para a madrugada. A poesia dá sentido ao inexplicável. Vem ter connosco como alguém que regressou do passado para nos abraçar.

Ouvindo Aurelino da Costa, vejo como certos dias foram de trigo, como a esperança é a sombra de um moinho branco caída numa trança. Quero ainda dizer, o Verão, o azul do Verão, a dormir nas nossas mãos nas noites mais longas e tristes.

Uma voz, a poesia de Miguel Torga. Um piano. Que deslumbramento nesta viagem pela música das emoções!

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