Mês: Fevereiro 2010

Um poema de Charles Bukowski

I Made A Mistake

by Charles Bukowski

I reached up into the top of the closet

and took out a pair of blue panties

and showed them to her and

asked “are these yours?”

and she looked and said,

“no, those belong to a dog.”

she left after that and I haven’t seen

her since. she’s not at her place.

I keep going there, leaving notes stuck

into the door. I go back and the notes

are still there. I take the Maltese cross

cut it down from my car mirror, tie it

to her doorknob with a shoelace, leave

a book of poems.

when I go back the next night everything

is still there.

I keep searching the streets for that

blood-wine battleship she drives

with a weak battery, and the doors

hanging from broken hinges.

I drive around the streets

an inch away from weeping,

ashamed of my sentimentality and

possible love.

a confused old man driving in the rain

wondering where the good luck

went.

Nathalie Sarraute

O cabelo liso, corrido, de cinza. A écharpe castanha sobre a camisola cinzenta, talvez de lã, a mão direita acompanhando as palavras. Vejo-a no vídeo, um momento breve, o seu francês culto e sedutor, a pronúncia adocicada de Paris.

Nathalie Sarraute foi uma mulher frágil de corpo mas com um firme espírito de árvore. Tinha quase cem anos quando faleceu.
Lembrei-me hoje dela – um dia de sol, tão alto como se fosse mediterrânico.

Enquanto Vancouver explode com os Jogos Olímpicos, escondi-me em casa entre os livros, assustado, fugindo das multidões e do tráfego desenfreado.

A noite entretanto chegou, tão de repente como um pássaro desorientado.

Levantei-me na pausa da escrita e relancei os olhos sobre a estante. Foi quando notei a lombada do seu «Infância». Escreveu-o já tarde, ia nos seus oitenta e poucos anos de idade.

Recordo a sua vasta cultura, a complexidade, e quão sóbria foi na construção da frase. A sua escrita, enfim, luminosa, eloquente e de enorme profundidade.

Literatura, ó literatura!

É certo que a minha experiência de vida levou-me a desprendimentos múltiplos. Não tenho sentido pátrio como a maioria. Substitui-o pelo calor de algumas pessoas a quem infinitamente estimo. Elas são a minha terra e o meu país em qualquer lugar e momento em que estou com elas.

Sinto o mesmo em relação à literatura.  Há muitos anos que ultrapassei as fronteiras da minha língua que tanto amo. A verdade é que me sinto atraído por certos autores pelas afinidades temáticas, de estilo, e pelo génio. Não por serem de um país específico.

Não sou ferozmente lusófono nos meus gostos literários. Mas há autores dos quais gosto muito, sobretudo pelo «sabor» que trazem à Língua Portuguesa, pela inventividade criativa e fulgor narrativo. Um deles é (foi) José Cardoso Pires, escritor de excepção.

De vez em quando volto aos seus livros. Tenho na minha secretária a 9. a edição de O Anjo Ancorado.

Sempre que tenho nas mãos esta novela, porém, não consigo ultrapassar o gosto amargo de boca que é vê-la «sequestrada» por dois prefácios: um de António Tabucchi e o outro de Mário Dionísio.

Enquanto o de Tabucchi é contido (três páginas), o de Mário Dionísio irrompe pelo livro fora numa corrida de 41 longas páginas! Quando muito, os textos destes dois grandes escritores deveriam ter aparecido como posfácios. Idealmente, pertenceriam a um opúsculo, ou mais alargado, com outros testemunhos, pese embora o facto de os livros de ensaios terem um mercado mais restrito do que os romances.

Estranho esta decisão editorial. Não propriamente em relação aos autores dos textos, aliás, excelentes, mas quem achou por bem uma publicação nestes moldes. Uma pena. Tanto pelos prefaciadores como pelo autor. Fica-se com a sensação de uma coisa ao avesso, fora da sua ordem natural, do seu contexto. Asfixiante. Os leitores são inteligentes o suficiente para lerem um romance a seu modo, não precisam de quem os leve pela mão. Subtrair esse direito ao público (sobretudo no caso de um autor maior como foi e é Cardoso Pires) é, no mínimo, um desencanto.

Apesar disso, gosto imenso deste livro. Recomendo-o sempre a quem ainda não o leu.

Lobo Antunes

Em Portugal não há ninguém a escrever como António Lobo Antunes. A sua escrita transcende todos os paradigmas tradicionais no género. É uma voz tão inédita como um rio a correr dentro do mar. A sua ficção transporta-nos para o vórtice das emoções mais complexas, transgredindo em certa maneira as «normas» da narrativa corrente. As suas personagens são de uma abrangência psicológica e emocional tão complexas que, em certos momentos, me fica a sensação de estar perante algo irreal e surpreendentemente mágico.  É uma espécie de poesia em capítulos e com uma história pelo meio. Genial.

Agrada-me sobremaneira a sagacidade criativa de Lobo Antunes, os seus fulgurantes tiros à nuca do previsível. Ele é o autor que mais perto está das suas personagens, nas suas múltiplas vertentes psíquicas, emocionais e sensoriais. Cada livro de Lobo Antunes revela-nos o filme de um universo interior, subtil, onírico. Muito complexo e metaforicamente vivido, é certo, mas respirado, palavra a palavra, até ao derradeiro fôlego da frase.

Na última página fica-nos o sabor de uma imensa viagem que chega ao fim, depois de se ter atravessado todos os desertos, que são os intermináveis labirintos humanos.

O autor acena-nos então por entre as personagens, e diz-nos, a sorrir:

– Estive sempre aqui. Não me viste?

Vi.

De Setembro

Por ti escrevo o desenho do sol sobre as macieiras,
o destino da minha sombra na terra.

Estás longe no fulminante calendário
das emoções.

As folhas que pisaste no último outono
ardem agora, rutilantes e húmidas,
na tarde vazia.

Vejo-te a cantar na memória
como no primeiro dia,
os dedos tão cegos como frutos.

Sabes?

O odor dos eucaliptos
traz ainda setembro
e a cor dos teus olhos.

In One Day Between Us
– versão portuguesa.

O meu barbeiro italiano

Empurrei a porta, velhíssima, sob várias, grossas camadas de tinta vermelha. Aquele aspecto antigo, desajeitado. O vidro ao topo, uma coisa ornamental tosca, a levar-nos para o mau gosto.

– Buon giorno!

O Tony levantou a navalha da barba, que cintilou com a luz florescente do tecto. O braço ao alto, peludo, a eterna camisa branca de algodão de mangas curtas. O cliente na cadeira, um homem magro, muito rosado, de olhos fechados, a cara ensaboada. Parecia concentrado no escuro.

– Buon giorno!

Como sempre, o Tony não sorriu. Respondeu-me como se estivesse a falar com uma pedra, sem expressão, distante.

– Há muito tempo que não apareces. O que foi feito de ti?

Dou-lhe a resposta do costume: que ando por aí, distraído com o mundo. O Tempo passa sem rasto. É como o vento.

Ele encolheu os ombros como se eu fosse uma causa perdida.

Sentei-me na primeira cadeira que encontrei disponível. Defronte, uma mesa baixinha cheia de revista de automóveis. Peguei numa.

Notei entretanto uma pequena secretária com um computador antigo. Inquiri.

– Até tem Internet, mas só trabalha quando lhe apetece … –, respondeu-me enquanto apontava a navalha ao pescoço do cliente. Correu a lâmina de seguida, devagar, consciencioso, o pulso firme. Depois limpou-a a um pano, dobrado no braço esquerdo.

– Tem mais independência do que eu! – rematou.

O homem na cadeira, sempre de olhos fechados, sorriu. Vi-o então abrir boca, a fila muito desalinhada dos dentes.

– Concordo com o Tony. E já agora acrescento: eles são temperamentais como as mulheres. Nunca sabemos como estão.

– Não foi bem isso o que eu disse – cortou o Tony. – Até gosto muito de mulheres. Mas que os computadores chateiam, lá isso chateiam. Já agora, James, peço-te que não fales. Posso cortar-te sem querer – avisou o barbeiro baixando a lâmina.

O James piscou os olhos, enrubescido. Balbuciou uma desculpa e voltou à sua imobilidade de sáurio.

O barbeiro não era um homem sofisticado. Estudara pouco, não lia, e acompanhava a evolução tecnológica com olho desconfiado. Tinha, porém, duas paixões: a pesca e os Jaguar.

Por toda a parede da barbearia viam-se fotografias dele a pescar, acompanhado de amigos. Nalgumas notava-se um jovem delgado, de estatura média, e com uma madeixa teimosa de cabelos negros e agressivos caídos sobre a testa. Noutras um homem de meia-idade, o mesmo sorriso de triunfo, as botas de cano alto à Hemingway onde afundava as calças. Em todas elas, porém, viam-se os troféus em primeiro plano. O seu orgulho era evidente. Tinha-os junto aos pés, testemunhos do seu triunfo para a posteridade, argumentos inequívocos da sua perícia e obstinação. Os peixes eram de facto enormíssimos, suculentos, e de se morrer de inveja. Davam para a extravagância exibicionista de um banquete de gente rica.

Mas o sol que atravessava a janela caía sobre um peixe gigantesco, embalsamado, que o Tony exibia com orgulho e muito destaque ao centro da parede. Quem entrava, descobria-o logo, imponente, esplêndido. Ficava-se com a breve impressão de que se entrara pela porta errada, de um museu, em vez de aquela humilde barbearia de bairro.

O italiano era um homem metódico, um relógio suíço de hábitos inquebráveis. Não me lembro de alguma vez ter visto o seu Jaguar parado noutro local senão aquele, do outro lado do passeio. Parecia um imperador em descanso.

Era evidente o seu apreço por ele, uma máquina possante de 12 cilindros. Sob a forte claridade do Verão, o prateado da pintura dava-lhe um ar de cavalo indomável.

Por trás da cadeira, uma tesoura na mão, um pente ou uma navalha, o seu olhar de vez em quando voava para a rua. Parecia um pássaro triste e atormentado com o seu aprisionamento. Notava-se que tinha um imenso afecto pelo seu belo companheiro de metal.

***

Há poucos dias voltei à barbearia e já não  encontrei o Tony.  Passou o negócio e reformou-se. Saiu do país.

A barbearia não parecia o mesmo lugar – sem a fluidez dos seus gestos, a sua indiferença assoberbada, as fotografias, o peixe embalsamado, as revistas de carros e o venerável e preguiçoso computador.

Fui-me embora com o cabelo cortado para não desapontar o novo proprietário, mas sem a convicção de que voltaria.

Quando saía, um homem atravessava a rua. Dirigiu-se ao lugar onde o Tony estacionava o carro e meteu-se num Toyota vermelho.

Ao passar por mim notei-lhe o ar intrigado. Só então me dei conta de que tinha estado a olhar para ele imaginando os últimos passos do meu barbeiro italiano ao encontro do crepúsculo da sua vida.