Literatura, ó literatura!

É certo que a minha experiência de vida levou-me a desprendimentos múltiplos. Não tenho sentido pátrio como a maioria. Substitui-o pelo calor de algumas pessoas a quem infinitamente estimo. Elas são a minha terra e o meu país em qualquer lugar e momento em que estou com elas.

Sinto o mesmo em relação à literatura.  Há muitos anos que ultrapassei as fronteiras da minha língua que tanto amo. A verdade é que me sinto atraído por certos autores pelas afinidades temáticas, de estilo, e pelo génio. Não por serem de um país específico.

Não sou ferozmente lusófono nos meus gostos literários. Mas há autores dos quais gosto muito, sobretudo pelo «sabor» que trazem à Língua Portuguesa, pela inventividade criativa e fulgor narrativo. Um deles é (foi) José Cardoso Pires, escritor de excepção.

De vez em quando volto aos seus livros. Tenho na minha secretária a 9. a edição de O Anjo Ancorado.

Sempre que tenho nas mãos esta novela, porém, não consigo ultrapassar o gosto amargo de boca que é vê-la «sequestrada» por dois prefácios: um de António Tabucchi e o outro de Mário Dionísio.

Enquanto o de Tabucchi é contido (três páginas), o de Mário Dionísio irrompe pelo livro fora numa corrida de 41 longas páginas! Quando muito, os textos destes dois grandes escritores deveriam ter aparecido como posfácios. Idealmente, pertenceriam a um opúsculo, ou mais alargado, com outros testemunhos, pese embora o facto de os livros de ensaios terem um mercado mais restrito do que os romances.

Estranho esta decisão editorial. Não propriamente em relação aos autores dos textos, aliás, excelentes, mas quem achou por bem uma publicação nestes moldes. Uma pena. Tanto pelos prefaciadores como pelo autor. Fica-se com a sensação de uma coisa ao avesso, fora da sua ordem natural, do seu contexto. Asfixiante. Os leitores são inteligentes o suficiente para lerem um romance a seu modo, não precisam de quem os leve pela mão. Subtrair esse direito ao público (sobretudo no caso de um autor maior como foi e é Cardoso Pires) é, no mínimo, um desencanto.

Apesar disso, gosto imenso deste livro. Recomendo-o sempre a quem ainda não o leu.

Lobo Antunes

Em Portugal não há ninguém a escrever como António Lobo Antunes. A sua escrita transcende todos os paradigmas tradicionais no género. É uma voz tão inédita como um rio a correr dentro do mar. A sua ficção transporta-nos para o vórtice das emoções mais complexas, transgredindo em certa maneira as «normas» da narrativa corrente. As suas personagens são de uma abrangência psicológica e emocional tão complexas que, em certos momentos, me fica a sensação de estar perante algo irreal e surpreendentemente mágico.  É uma espécie de poesia em capítulos e com uma história pelo meio. Genial.

Agrada-me sobremaneira a sagacidade criativa de Lobo Antunes, os seus fulgurantes tiros à nuca do previsível. Ele é o autor que mais perto está das suas personagens, nas suas múltiplas vertentes psíquicas, emocionais e sensoriais. Cada livro de Lobo Antunes revela-nos o filme de um universo interior, subtil, onírico. Muito complexo e metaforicamente vivido, é certo, mas respirado, palavra a palavra, até ao derradeiro fôlego da frase.

Na última página fica-nos o sabor de uma imensa viagem que chega ao fim, depois de se ter atravessado todos os desertos, que são os intermináveis labirintos humanos.

O autor acena-nos então por entre as personagens, e diz-nos, a sorrir:

– Estive sempre aqui. Não me viste?

Vi.

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