Dia da Mãe

Se pudesse, trazia-te nestas palavras um ramo de hortênsias azuis e os dias mais orgulhosos da tua juventude. Reunia num verbo a estirpe que se foi, sentava-a ao redor da tua mesa com massa sovada e licor de maracujá. Chorava convosco  a alegria desse momento com toda a emoção de quem observa o princípio do mundo.

Mas quem sou, mãe? Apenas um gato selvagem com coração de poeta, balançando a vida sobre os muros dos dias sempre à espera do afago do sol.

Amo-te tanto que não sei como expressar esta abrangência que me ultrapassa. É uma espécie do mar calmo de Setembro na tua ilha. Vejo-o com os olhos do rapazinho de sempre e de calções quando estou ao pé de ti, ou a caminhar ao encontro da água, límpida e serena, que é a tua imensa bonomia.

Ensinaste-me que o amor é uma floresta secreta quando abrimos as mãos. Que não existem horas para a ternura, e que a história dos mais tristes é um sermão na montanha e a qual devemos ouvir com todo o respeito.

Se pudesse, minha mãe, dava-te todas as flores dos campos. Pedia a Deus que deixasse o meu pai regressar, mesmo que fosse apenas por um dia, do universo infinito que nos separa.

Mas não posso. Não tenho a tua grandeza nem a tua força.

Digo-te mais uma vez que te amo; e ao dizê-lo dou-te tudo o que é de mais  sagrado dentro de mim.

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