O Adeus de Mister Bento

Já não o via há muitos meses. Aconteceram-lhe coisas más à saúde, uma trombose, por exemplo, com todas as complicações que isso acarreta. Fechou-se em casa a partir daí – a personalidade mudou, os hábitos. A sua existência passou a ser uma silhueta entre cortinas, os olhos míopes tentando descodificar as imagens na rua. Mister Bento plantou-se no chão como a ausência se apodera dos olhos tristes de uma viúva.

Vi-o hoje. Pareceu-me um homem encolhido, minguado; um clamor de silêncio. Um arbusto a secar no deserto. Estava sob a figueira, uma pobre árvore que enfrentou mal o Inverno agreste de há dois anos. Lembro-me do seu indicador direito a apontar a árvore, do seu jeito dramático e resignado tão comum aos portugueses perante a tragédia:

Acabaram-se-nos os figos. O raio deste frio deu cabo dela!

Mister Bento tinha a barba por fazer e as mãos nos bolsos. Nos cabelos escuros (uma raridade num homem de 83 anos!) dardejava o sol forte da manhã. Por cima dele, vigorosos, muito verdes, despontavam os primeiros figos.

Então, mister Bento, como tem andado?

Mexeu-se como um pássaro ferido, lentamente. A sua pele facial, que não está habituada aos vínculos do sorriso, não se alterou. Manteve-se como uma pedra lisa.

Isto não vai bem. Não vai nada bem – enfatizou.

Nunca foi um homem expressivo, de largos e efusivos gestos. Tem, aliás, uma feição dura de camponês abastado, a língua solta. Usa por vezes adjectivos corrosivos e um vernáculo bruto. Ele é, todo ele, um homem antigo, de outro tempo. Mas agora, debilitado, tinha os braços caídos, as pernas apartadas numa postura de quem desconfiava do seu próprio balanço. Fiquei com pena dele.

Estou a despedir-me…

Vai outra vez a Portugal?

Olhou para mim espantado. Levou a mão direita à cabeça e alisou o cabelo. Sobre ele pousava, fresca, uma sombra da figueira.

Portugal? Isso era bom! Vou mas é para o buraco. O buraco onde acabamos todos.

Não diga isso, mister Bento. Só Deus é que sabe e destina essas coisas.

Cá nada, homem! Já chegou a altura de me ir embora. Tenho a certeza.

Calou-se. As lentes dos óculos estavam um pouco embaciadas. Havia um vazio muito grande nas suas palavras. De repente ausentou-se de mim, como se eu não estivesse ali.

Sempre me custou muito observar a velhice sofrida. A minha empatia pelos seres frágeis causa-me muito sofrimento.

Estendi-lhe a mão.

Bom, mister Bento, tenho de ir-me embora. Fique bem. Quero vê-lo mais vezes. Lembre-se do que me prometeu…

De cenho franzido:

Prometi? Prometi o quê?

Figos, mister Bento. Não se lembra?

Ah, sim! Mas isso é só no Verão. Ainda estamos longe.

Eu sou paciente. Até lá.

Até lá.

Voltarei. Os figos de mister Bento são o lado doce do seu azedume. Sem acidez de feitio, porém, ele seria um homem como outro qualquer. É, digamos, a marca da sua irreverente solidão.

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