Mês: Junho 2010

Advertência das Sombras

Os jacarandás.

Observava-os da janela do Teatro, na manhã luminosa do Funchal e no intervalo das conferências. Eram árvores imponentes e belas, fosforescentes sob o sol aurígero da ilha. Quantas vezes me apeteceu descer aquelas escadas antigas, atravessar a rua e deixar-me tocar, extasiado, pela sombra fresca e magnânima dos seus ramos?

Hoje, sob este sol que atravessa Pitt Meadows como um lençol transparente do estio, recordo esses dias do Funchal cheios de palavras e imagens inesquecíveis. No topo dessas recordações está a Maria Aurora, sentada entre os jarros dos montes, o mar a cantar de braços abertos por trás das suas costas.

Gostava dela como quem admira um belo quadro de Matisse: com profunda admiração. A sua bondade viajava como uma ave por dentro de nós. Os seus braços, como os ramos dos jacarandás, eram fortes e acolhedores. Os seus amigos encontravam sempre neles um imenso ninho de ternura. Ela era a mãe, a irmã, a companheira nas palavras cheias de arte e humanidade.

E como escrevia! A sua ficção e poesia, as suas magníficas histórias para crianças. A Maria Aurora era uma artista cujo verbo nos tocava sempre no fundo com a mais humana e palpável sensibilidade.

Já não a temos connosco. Esta realidade, crua e indefectível, absorve-me completamente como uma chuva de pedras. O mundo fica irremediavelmente mais pequeno e triste com a partida de um(a) amigo(a).

Já não a via há alguns anos, é certo. Mas era como se fosse ontem: a amizade não conhece distâncias nem fronteiras porque circula nas artérias mais íntimas do coração.

Hoje a memória é uma casa de espuma. Sento-me na varanda enquanto o filme de outros dias mergulha, devagar, no mar da melancolia. Ao fundo, a silhueta da Maria Aurora de Carvalho Homem, a amiga. Canta, canta sempre entre o silêncio purpúreo dos jacarandás.

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