Advertência das Sombras

Os jacarandás.

Observava-os da janela do Teatro, na manhã luminosa do Funchal e no intervalo das conferências. Eram árvores imponentes e belas, fosforescentes sob o sol aurígero da ilha. Quantas vezes me apeteceu descer aquelas escadas antigas, atravessar a rua e deixar-me tocar, extasiado, pela sombra fresca e magnânima dos seus ramos?

Hoje, sob este sol que atravessa Pitt Meadows como um lençol transparente do estio, recordo esses dias do Funchal cheios de palavras e imagens inesquecíveis. No topo dessas recordações está a Maria Aurora, sentada entre os jarros dos montes, o mar a cantar de braços abertos por trás das suas costas.

Gostava dela como quem admira um belo quadro de Matisse: com profunda admiração. A sua bondade viajava como uma ave por dentro de nós. Os seus braços, como os ramos dos jacarandás, eram fortes e acolhedores. Os seus amigos encontravam sempre neles um imenso ninho de ternura. Ela era a mãe, a irmã, a companheira nas palavras cheias de arte e humanidade.

E como escrevia! A sua ficção e poesia, as suas magníficas histórias para crianças. A Maria Aurora era uma artista cujo verbo nos tocava sempre no fundo com a mais humana e palpável sensibilidade.

Já não a temos connosco. Esta realidade, crua e indefectível, absorve-me completamente como uma chuva de pedras. O mundo fica irremediavelmente mais pequeno e triste com a partida de um(a) amigo(a).

Já não a via há alguns anos, é certo. Mas era como se fosse ontem: a amizade não conhece distâncias nem fronteiras porque circula nas artérias mais íntimas do coração.

Hoje a memória é uma casa de espuma. Sento-me na varanda enquanto o filme de outros dias mergulha, devagar, no mar da melancolia. Ao fundo, a silhueta da Maria Aurora de Carvalho Homem, a amiga. Canta, canta sempre entre o silêncio purpúreo dos jacarandás.

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3 pensamentos sobre “Advertência das Sombras

  1. Estranho, respeito e admiro estas palavras duma serenidade espantosa perante a memória de alguém que partiu. São palavras ternas, singelas, cheias de um sentido afecto.

    (o homem que as escreve tem de ser interessante. Não o conheço, nem sei o que faz, mas gosto das suas pinceladas escritas e imagéticas. Belo, sem dúvida.)

  2. O quê?… A Dona Aurora deixou-nos?… Fui. agora, apanhada de surpresa… Da Madeira, onde vivia, trazia-nos o mundo, com a alegria e a jovialidade que só ela sabia ter e as nossas tardes ociosas de fins de semana vazios e iguais tornavam-se mais coloridas com os sons e imagens com que ela enchia a “janela” televisiva. Havia nela qualquer coisa de grande, de mágico… Talvez fosse dos jacarandás…
    Obrigada ao autor de “Advertência das Sombras” por este texto tão belo de homenagem à Dona Aurora.

  3. Que saudade da Maria Aurora.
    Tuas palavras dançam,cantam,pintam,retratam e falam da querida amiga que passou.
    Ficou as flores de jacarandá e a saudade do abraço forte da amiga de todos nós.
    Beijos

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